18.11.11

Pode voltas atrás. Podes sempre voltar atrás. Pensa bem se é isso que queres. 

17.11.11

Não gosto do que escrevo. Escrevo pouco e não gosto. Sento-me numa café, tenho papel e caneta, escrevo um poema e não gosto. Penso em publicá-lo e não quero. Não gosto do que escrevo. Rasgo livros antigos e deito ao lixo toda a produção adolescente. Fecho algumas portas como quem sacode toalhas à janela. Não durmo de noite porque procuro frases exactas. Escrevo pouco, cada vez menos. Não gosto do que escrevo.

16.11.11

A independência é um jogo amigável, uma data marcada no calendário. Uma coisa que só acontece na cabeça de alguns. O incómodo é um determinado período do mês, um dia certo da semana. A mesma frase, a mesma ideia, depende de segunda, terça, quarta ou quinta-feira. Para ser a pior coisa do mundo. Para ser só qualquer coisa de que te vão culpar no futuro. Para não ser nada, porque ninguém deu por ti a dizê-la. 

15.11.11

O fim de uma amizade é um lançamento lateral. Ninguém parece dar muita importância a isso. Se bem executado, passa como nada. Quase um intervalo na normal rotação do mundo. No entanto, até num lançamento lateral podes cometer uma falta ou, pior, lançá-lo na direcção de um adversário. Assim, perdes o controlo da bola e acabas mesmo por sofrer um golo. O fim de uma amizade é um sinal de perigo numa auto-estrada vazia.

14.11.11

A emoção é uma área restritiva. Tens pouco tempo para te deixares ficar lá dentro. Esperas que reparem em ti, mas apenas os que te importam. Queres sentir-te importante ou sair dali a correr. Tens pouco tempo, é isso. A emoção é uma área restritiva. E quando a provas, ainda assim temes, que a anulem por pretensa falta. 

4.11.11

Casas casas

Para não te magoares mais, agora o passado é todo ficção. Chegou o frio, sabes que podes vestir um casaco e caminhar pela cidade quando anoitece. Vais acariciando a barba e sentindo-te crescido. Um homenzinho, quase. Sabes bem o que fazer para não te magoares mais. Passas pelas portas das casas, das casas, seguro de que numa delas tens o teu lar. Aprendeste a construir com quatro mãos. Tens duas cabeças para pensar. Sabes bem o que fazer para não te magoares mais. Agora o passado é todo ficção. Podes vivê-lo como um filme. Há um sinal que te avisa do final da sessão. Passas os dedos pelos cabelos, enches um copo de vinho, sentes-te mais sossegado. Para não te magoares mais, as casas, as casas são só casas. Aprendeste a acordar em segurança.

3.11.11

Outra casa (2011)

Regresso a ti sem sentimentos.
Apenas umas paredes,
um resto de mobília que a custo
reconheço.
Só sei do encanto inicial
pela memória que se apaga
e todas as histórias submersas
aguardam agora pelo futuro
para se refazerem da bruma.
Afinal, nós somos sempre o que vivemos
em cada momento, em cada passo.
Pararemos um dia para pensar.
Depois da morte, talvez.

2011

2.11.11

Uma casa (2011)

O prédio está em silêncio, no seu repouso
erigido à beira da estrada.
Sou capaz de imaginar alguma brisa,
folhas de arbustos a correr assustadas.
No quarto ao lado, tu. Adormecida e ausente,
em sonhos. Levanto-me e apalpo
o trajecto reconhecido, a luz apagada.
Na cozinha, sento-me perto da janela.
O frigorífico remexe-se, eléctrico e molhado.
Não sei o que espero, quero ler na escuridão
das casas vizinhas muitas outras sombras sentadas.
Reconheço a cidade por um avião que passa,
ao alto. Só nos perdemos assim, silenciosos.
Podia fechar os olhos, um escuro mais escuro,
a fingir-se tela de imaginações. Ouviria um rio.
O frigorífico. Pressinto a electricidade, no silêncio
impossível desta casa. Para voltar ao meu colchão,
passo pela porta do quarto onde dormes.
Sim, estás lá. Procuro, no monte de roupa suja
que deixei na sala, as peças suficientes para sair à rua.
Protege-me a escuridão. Paro junto à porta,
afinal irrompe a respiração na ausência de sons.
Não faço malas, não sei se me apetece voltar.
A carteira, os pensamentos de que não me consigo separar.
Mantenho as chaves do lado de dentro da porta.
Não faço barulhos. Deixo, em cima da mesa,
um caderno em branco, o meu recado.
Vais fingir que eu nunca existi
e eu não vou voltar a procurar como dizer
coisas que me doem.
Depois da morte, talvez.


2011

1.11.11

Nove passos na escuridão (2005, II)

deixo, em cima da mesa, um caderno em branco onde possas guardar,
sempre que queiras, coisas da ordem do incomunicável ao próximo.
depois da morte, voltaremos ambos a estas páginas.
e procuraremos renascer no apagar das palavras.

o prédio está em silêncio, no seu repouso
erigido à beira da estrada.
sou capaz de imaginar alguma brisa,
folhas de arbustos a correr assustadas.
no quarto ao lado, tu, adormecida e ausente,
em sonhos. levanto-me e apalpo
o trajecto reconhecido, a luz apagada.

na cozinha, sento-me perto da janela.
o frigorífico remexe-se, eléctrico e molhado.
não sei o que espero, quero ler na escuridão
das casas vizinhas muitas outras sombras sentadas.
o prédio como hospício de pessoas perdidas.
reconheço a cidade por um avião que passa,
ao alto. só nos perdemos assim, silenciosos.
de dia, ninguém ouve os aviões.

podia fechar os olhos, um escuro mais escuro,
a fingir-se tela de imaginações. ouviria um rio.
o frigorífico. pressinto a electricidade, no silêncio
impossível desta casa. penso em nomes,
Miguel, Pedro, Sérgio, Alexandre. penso em movimentos,
ataque, defesa, lateralização. cinco da manhã
de uma noite por existir, não pode haver distracção.

para voltar ao meu colchão, passo pela porta do quarto
onde dormes. sim, estás lá. procuro, no monte de roupa suja
que deixei na sala, as peças suficientes para sair à rua.
para não me denunciar, a escuridão. paro junto à porta,
afinal irrompe a respiração na ausência de sons.

a casa, de noite, é uma sinfonia.
nunca estamos sós, apagados.
sempre alguém, algo,
para nos dizer que existimos.

encontro as peças de roupa.
não faço malas, não sei se me apetece voltar.
a carteira, os pensamentos de que não me consigo separar.
mantenho as chaves do lado de dentro da porta.
não faço barulhos.

olho o poema, não me entendo na decisão do seu início.
talvez o poema não comece exactamente na primeira palavra.
talvez devêssemos virar tudo isto ao contrário.

deixo, em cima da mesa, um caderno em branco,
o meu recado. vais fingir que eu nunca existi
e eu não vou voltar a procurar como dizer
coisas que me doem. depois da morte,
talvez.

in Registo de Nascimento, 2005

31.10.11

Nove passos na escuridão (2005)

I
Deixo, em cima da mesa, um caderno em branco onde possas guardar,
Sempre que queiras, coisas da ordem do incomunicável ao próximo.
Depois da morte, voltaremos ambos a estas páginas
E procuraremos renascer no apagar das palavras.


II
O prédio está em silêncio, no seu repouso
Erigido à beira da estrada.
Sou capaz de imaginar alguma brisa,
Folhas de arbustos a correr assustadas.
No quarto ao lado, tu, adormecida e ausente,
Em sonhos. Levanto-me e apalpo
O trajecto reconhecido, a luz apagada.


III
Na cozinha, sento-me perto da janela.
O frigorífico remexe-se, eléctrico e molhado.
Não sei o que espero, quero ler na escuridão
Das casas vizinhas muitas outras sombras sentadas,
O prédio como hospício de pessoas perdidas.
Reconheço a cidade por um avião que passa,
Ao alto. Só nos perdemos assim, silenciosos.
De dia, ninguém ouve os aviões.


IV
Podia fechar os olhos, um escuro mais escuro,
A fingir-se tela de imaginações. Ouviria um rio.
O frigorífico. Pressinto a electricidade, no silêncio
Impossível desta casa. Penso em nomes,
Miguel, Pedro, Sérgio, Alexandre. Penso em movimentos,
Ataque, defesa, subida, descida. Cinco da manhã
De uma noite por existir, não pode haver distracção.


V
Para voltar ao meu colchão, passo pela porta do quarto
Onde dormes. Sim, estás lá. Procuro, no monte de roupa suja
Que deixei na sala, as peças suficientes para sair à rua.
Para não me denunciar, a escuridão. Paro junto à porta,
Afinal irrompe a respiração na ausência de sons.


VI
A casa, de noite, é uma sinfonia.
Nunca estamos sós, apagados.
Sempre alguém, algo,
Para nos dizer que existimos.


VII
Encontro as peças de roupa.
Não faço malas, não sei se me apetece voltar.
A carteira, os pensamentos de que nunca estou separado.
Mantenho as chaves do lado de dentro da porta.
Não faço barulhos.


VIII
Olho o poema, não me entendo na decisão do seu início.
Talvez o poema não comece exactamente na primeira palavra.
Talvez devêssemos virar tudo isto ao contrário.


IX
Deixo, em cima da mesa, um caderno em branco,
O meu recado. Vais fingir que eu nunca existi
E eu não vou voltar a procurar como dizer
Coisas que me doem. Depois da morte,
Talvez.



2005

29.10.11

"Comprei casa com empréstimo bancário. Pus nela as minhas poupanças, a minha ideia de lugar amável, os meus livros, a minha família. Depois, a casa foi envelhecendo e os juros da Euribor foram subindo. Por ser tão custoso mantê-la, é muito difícil não desistirmos da casa; mas é igualmente inviável não termos uma habitação.
O preço de viver não se mede apenas pelo spread, pelo Banco Central Europeu ou pelo valor do crude. Basta dizer que o Verão vai acabar; que a minha mãe viajou de bela a velha em segundos; que o meu pai morreu no ano passado antes de falarmos; que já me vai faltando a ingenuidade essencial de acreditar.
A poesia sabe disto?"



Joaquim Jorge Carvalho

2.9.11

Com que voz


As vozes embalaram-me durante anos. As vozes da casa, das paredes, dos que existiam e não existiam. As várias vozes da minha boca. As muitas vozes da imaginação. As vozes seguras. As vozes incertas. Sempre, num balanço diário, desde o acordar ao adormecer.

Uma sinfonia precisa sempre de uma organização. Pegamos nos vários instrumentos e tentamos que, da confusão, nasça uma harmonia. Às vezes conseguimo-lo à primeira. Noutras, muitos anos se gastam na perseguição desse objectivo.

Não canso o meu espantar perante uma coisa bem feita quando o pensamento era ainda tão rarefeito. Nem perdoo a preguiça por não ter colocado todos os outros textos acima do nível destes menos maus.

Enquanto houver vida, haverá mudança. 

31.8.11

Parede (2011)

A menina do lado de lá da parede, os seus vestidos,
não sentada, mas em repouso, a falar,
cinematograficamente desleixada,
com seu séquito fiel, as bonecas.
Amacia os teus lábios em segredo
quando o teu amor estiver à porta.
O silêncio confirmará a aceitação.

Fazia as várias vozes enquanto passava os dedos magros
nos cabelos longos e incertos.
As bonecas, quietas, em fila pela beira do colchão,
a mobília em cenário além rio.
Fazia as várias vozes.
Assim aprendemos a interpretar o silêncio.

Era uma menina pequena, o seu corpo não revelava
nada do que pensava conhecer das coisas com que se faz a vida.
Era uma menina, fechada na casa, do lado de lá da parede.
A parede, imagino-a fina, frágil, como a menina.
Eu oiço as vozes, sim.
As das bonecas.

Se a menina falava de amor, de que falavam as bonecas?
Os cabelos longos, espalhando-se pelos ombros.
As bonecas gostam de brincar com as bonecas,
ser senhoras grandes a fingir.
A menina a falar de amor e as bonecas
a empurrarem-se umas às outras da cama abaixo.
A menina espreita da janela.
Eu oiço um grito.

Abre-se a janela, chega um carro lá em baixo.
A voz da menina, diferente das vozes das bonecas
e da menina do lado de lá da parede, chama pela mãe.
Assim se reconhece a chegada.
Uma boneca caída no chão levanta a cabeça espantada.
Pode afirmar-se,
o espanto é a foz da desilusão.

As bonecas brincam com as bonecas,
a menina com os dedos magros nos cabelos longos,
baloiçando sobre os ombros, sai do quarto a falar de amor.
O corpo pequeno que sabe das coisas com que se faz a vida,
o passo muito curto pelo corredor.

Só resta  o silêncio, sim.
As bonecas são agora só bonecas.
Oiço e já não oiço nada.
A menina do lado de lá do lado de lá
do lado de lá do lado de lá da parede.

30.8.11

Onde se demonstra a impossibilidade de conhecer meninas (2005)


a menina do lado de lá da parede, nos seus vestidos,
não sentada, mas em repouso, a falar,
cinematograficamente desleixada,
com o seu séquito fiel, as bonecas.
amacia os teus lábios em segredo
quando o teu amor estiver à porta.
o silêncio confirma a aceitação.

fazia as várias vozes enquanto passava os dedos magros
nos cabelos longos e incertos.
as bonecas, quietas, em fila pela borda do colchão,
a mobília em cenário além rio.
fazia as várias vozes.
por isso sabemos interpretar o silêncio.

era uma menina pequena, o seu corpo não revelava
nada do que pensava conhecer das coisas com que se faz a vida.
era uma menina, fechada na casa, do lado de lá da parede.
a parede, imagino-a fina, frágil, como a menina.
eu oiço as vozes, sim,
das bonecas.

se a menina falava de amor, de que falavam as bonecas?
os cabelos longos, incertos pelos ombros.
as bonecas gostam de brincar com as bonecas,
ser senhoras grandes a fingir.
a menina a falar de amor e as bonecas
a empurrarem-se umas às outras da cama abaixo.
a menina espreita da janela,
eu oiço guinchos.

abre-se a janela, chega um carro lá em baixo.
a voz da menina, diferente das vozes das bonecas
e da menina do lado de lá da parede, chama pela mãe.
assim se reconhece a chegada.
uma boneca caída no chão levanta a cabeça espantada.
pode afirmar-se,
o espanto é espaço de desilusão.

as bonecas brincam com as bonecas,
a menina com os dedos magros nos cabelos longos,
incertos sobre os ombros, sai do quarto a falar de amor.
o corpo pequeno que sabe das coisas com que se faz a vida,
o passo muito curto pelo corredor.

oiço o silêncio, sim.
as bonecas agora são só bonecas, do lado de lá da parede
nada resta para que se possa imaginar.
oiço e já não oiço nada.
a menina do lado de lá do lado de lá
do lado de lá do lado de lá da parede.

In Registo de Nascimento, Livrododia

29.8.11

a prenda (2004)


estávamos sentados em frente à televisão. era de noite, acho eu, ou então já era muito muito tarde, depois da hora de jantar. em cima da mesa da sala, um monte de flores espalhadas, dentro de plásticos rasgados e de cartas de amor esquecidas. não, não eram minhas, eram do anterior inquilino da residência. era de noite, muito muito noite, e tu de pijama a olhares para os meus dedos dos pés. puxaste-me pela mão e chupaste-me um dedo. eu sabia o significado desse gesto, sim, eu sabia. mas ainda assim, fiquei quieto a olhar para a televisão.

no outro momento, era de manhã e havia bolachas caídas pelo chão da casa de banho, misturadas com pó de arroz e pés descalços. eu olhava a minha barba a crescer no espelho e tu, sentada na sanita, estalavas os dedos como se arrancasses a cabeça a uma galinha. chamaste-me ao teu lado e puxaste-me pelos boxers. seguraste-me o pénis com as tuas mãos e chupaste-o de um só fôlego. engoli em seco, como se engole no deserto. e procurei a minha lámina de barbear no armário, mesmo por cima da sanita. são horas de irmos comprar o pão, não são?

e depois talvez não fosse nada disso, ou talvez o pequeno almoço em cima da mesa da cozinha e a televisão ligada na sic notícias a dar as mesmas notícias da noite passada. e depois havia pão e vinho sobre a mesa, os pijamas arrumados a um canto, prontos a serem lavados. e depois havia também um vizinho que nunca aparecia mas que nós sabíamos que vivia lá em casa. e depois, ao passar os olhos pelo frigorífico um pedaço de marmelada esquecido, talvez fosse de outra pessoa. sou uma menina pequenina.

27.8.11


sou uma menina
muito pequenina
não sei fazer nada
sem comer marmelada

Adriana Crespo, O Divertimento de A.

26.8.11

manipulação


A manipulação parece sair impune da luta contra a verdade. Confessar que se viveu para quê, quando sempre fica incerto o que foi, realmente a vida. Se nos fosse possível, a determinada idade, separar-nos de nós próprios, seriam as primeiras impressões de cada uma dessas novas pessoas semelhantes? A manipulação, enfim, parece sempre ser mais forte, musculada, concreta, segura. A verdade é apenas um resquício, não daquilo que somos, mas daquilo que, definitivamente, gostaríamos de ser. 

25.8.11

Crescido (2011)


Não estou a correr, não estou a chegar.
Estar parado é simplesmente
um modo imperfeito de ser dinâmico.
Quieto, sinto dominar todas as estradas.

Se me sento à mesa de um café,
é para poder estar um pouco mais ausente.
Por muito que até a mim soe estranho,
continuo a procurar outras pessoas.

Então chega o momento
em que fixo o olhar nas mesas vazias
e imagino-me triste.

Por muito que duvide do que vejo,
uma coisa me é garantida:
Não estou a correr, não estou a chegar.

24.8.11

(sem título) (2007)

14
Os dias
e depois tudo tudo
sempre a andar para trás.

15
Tinha cinco seis anos
talvez
mais coisa menos coisa
lembra-se
e o pai a andar por casa
despido.
Sabia de cor
as noites em frente à televisão
e tinha os olhos grandes
muito sempre muito abertos.
Diziam que era
calado.

16
Ah sim, mais velho, pois
a escola a rua a escola
meteu as mãos nas virilhas
durante o banho
meteu as mãos no pénis
sem pensar em ninguém
em nada
descobriu-se
durante o banho.
Ah sim, mais velho, pois
o quero-me quero-te ao infinito
como as erecções no quarto
sim
meteu as mãos ao pénis
meteu

17
Fechou a porta do quarto
quando apareciam pela face
as primeiras sombras do bigode.
Fechou
a porta
e no quarto vestiu casacos em cima de casacos.
Fechou
do quarto
a porta.
O que se via era a sombra.
A  sombra só.

18
Lembra-se, lembra-se de tudo tudo
os cinco os seis os doze os quinze
lembra, lembra-se
infinitamente
em todos os momentos,
como se pode esquecer
o pai e a mãe sentados na mesa da cozinha
os irmãos a brincar cada um numa ponta da casa
lembrar lembrar
noites em frente da televisão
alguém que bate à porta
o avô morreu
lembrar lembrar
o silêncio de quem não fala
sentados na cozinha
deitados na cama
lembra-se, lembra tudo,
o corpo o corpo o corpo
quem é que tem corpo quando a cabeça estala e explode
mil pedaços de lembranças
a que não se consegue escapar.


Pequena Antologia para o Corpo, 2007

23.8.11

Crescido (2005)

eu não estou a correr e também não estou a chegar.
parado é simplesmente um modo imperfeito de ser dinâmico.
eu paro e olho para ambos os lados da estrada.
por muito que duvide do que vejo, uma coisa me é garantida:
eu não estou a correr e também não estou a chegar.

se me sento à mesa de um café, é para poder estar um pouco mais ausente.
por muito que até a mim soe estranho, preciso de ver outras pessoas
para finalmente me sentir ausente em plenitude.
então, fixo o olhar nas mesas vazias e imagino-me triste.
levanto timidamente a minha mão e peço um café.
o empregado atende-me sem ter que me dar qualquer importância.
espalhadas pelos cantos estão as outras pessoas, as que não me vêem.
eu deixo que o café me toque os lábios e sorrio para dentro.

o que importa, no fazer colecções,
é o gozo que está na repetição do que encontramos.
se é grande a alegria de ver crescer a colecção,
maior é aquele sentimento de bonomia,
aquele sorriso que nos invade por dentro,
quando dizemos, já tenho, fico com o repetido.
é nesses momentos que percebemos que não estamos sós.

os dias
e depois tudo tudo
sempre a andar para trás.

tinha cinco seis anos
talvez
mais coisa menos coisa
lembra-se
e o pai a andar por casa
despido.
sabia de cor
as noites em frente à televisão
e tinha os olhos grandes
muito sempre muito abertos.
diziam que era
calado.

ah sim, mais velho, pois
a escola a rua a escola
meteu as mãos nas virilhas
durante o banho
meteu as mãos no pénis
sem pensar em ninguém
em nada
descobriu-se
durante o banho.
ah sim, mais velho, pois
o quero-me quero-te ao infinito
como as equações no quadro
sim
meteu as mãos ao pénis
meteu

fechou a porta do quarto
quando apareciam pela face
as primeiras sombras do bigode.
fechou
a porta
e no quarto vestiu casacos em cima de casacos.
fechou
do quarto
a porta.
o que se via era a sombra.
a sombra só.

lembra-se, lembra-se de tudo tudo
os cinco os seis os doze os quinze
lembra, lembra-se
infinitamente
em todos os momentos,
como se pode esquecer
o pai e a mãe sentados na mesa da cozinha
os irmãos a brincar cada um numa ponta da casa
lembrar lembrar
noites em frente da televisão
alguém que bate à porta
o avô morreu
lembrar lembrar
o silêncio de quem não fala
sentados na cozinha
deitados na cama
lembra-se, lembra tudo,
o corpo o corpo o corpo
quem é que tem corpo quando a cabeça estala e explode
mil pedaços de lembranças
a que não se consegue escapar.

in Registo de Nascimento, Livrododia, 2005

22.8.11

para saberes da minha verdade (2005)

existem uns poemas meus dos meus cinco, seis anos, em que um qualquer avaliador a posteriori poderia encontrar já uma grande parte daquilo que é a minha escrita: uma mistura entre coisas sérias e menos sérias, uma conjugação de um erudito (na altura imperceptível, quase) e um rapaz qualquer. algures entre essa idade e esta, vinte anos passaram, e algo me prende indiscutivelmente a essa dualidade. acho que nessa altura já me prendia a magia do papel em branco, mas normalmente atacava-o com mais afinco para fazer listas de jogadores de futebol de todas as proveniências. não guardo em outro lugar que não seja a memória cadernos e cadernos cheios de nomes, equipas, jogos inventados. nisso, eu era um menino como os outros.


[...]

20.8.11

Algumas proposições sobre crianças


A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz.

Ruy Belo

19.8.11

A aparição do corpo

Surge então o corpo. Disfarçado, disfarçado. No meio da necessidade de o introduzir por outro alguém, de um outro sexo até. Surge então o corpo. Ainda tão mascarado. Ainda tão inquieto consigo mesmo. Ainda só no início (ou no fim? ou no meio?) da descoberta da sua fragilidade. Corpo e fragilidade seria uma das portas, a primeira, a principal, da casa desta poesia. Surge então o corpo. Foi a primeira vez. Foi aqui. 

18.8.11

Corpo (2011)

Pergunto pelo meu corpo
E apercebo-me da imensa
Fragilidade de tudo isto.

17.8.11

Frágil (2011)

Com os lençóis desembrulhados
sobre o leito, com as mãos
desapertando corpos, a
nudez dos meus sentidos, o
enquadramento da minha
figura, a mão, infinitamente
pequena e leve.
Assim me reconheço
e sigo o caminho das pedras,
marcação exígua e delirante
da maciez das pálpebras
enganadas pelas nuvens.
Oiço-me sussurrar baixinho
neste leito,
onde toda a entoação da voz humana
tende a reduzir
o indivíduo receptor
ao estado de serpente fascinada
e entendo
quão grande pode ser
a instabilidade do momento.
Depois digo-me,
ensino-te o caminho, fica longe,
as mãos rasgando vestidos,
o cheiro das paredes escavacadas,
e eu, sozinho, mais uma vez,
a cuspir inventado sobre o colchão.
Faz então silêncio
em todo o comprimento da sala,
só um leve crepitar
ondula a minha respiração.
Pergunto pelo meu corpo,
deixo cair em mim
as mãos do esquecimento.
Seguro, com os pés,
a minha existência eréctil,
e apercebo-me da imensa
fragilidade de tudo isto.

16.8.11

Instruções para compor poemas (2005)

com os lençóis desembrulhados
sobre o leito, com as mãos
desapertando corpos, a
nudez dos teus sentidos, o
enquadramento da tua
figura, a mão, infinitamente
pequena e leve, sobre o obscuro
piano de cauda na sala da tua mãe.

permites-te embrenhar sobre a tela
essa mobilidade sem ombros
caras iluminadas pelo chão

por isso te reconheço
e sigo o caminho das pedras
marcação exígua e delirante
da maciez das pálpebras
enganadas pelas nuvens

oiço-te sussurrar baixinho
neste leito
onde toda a entoação da voz humana
tende a reduzir
o indivíduo receptor
ao estado de serpente fascinada
e entendo
quão grande pode ser
a instabilidade do momento
sem que nada fique
para o relembrar.

depois dizes, ensino-te o caminho, fica longe,
um pouco mais ao Sul, ou ao Norte,
que sei eu, as mãos rasgando vestidos,
o lustre nas paredes escavacadas,
um cão a ladrar muito muito alto e eu,
sozinha, mais uma vez, sozinha,
a cuspir inventado sobre o colchão.

faz agora silêncio
em todo o comprimento da sala
só um leve crepitar
ondula a minha respiração.
pergunto pelo meu corpo,
deixo cair em mim
as mãos do esquecimento.
seguro, com os pés,
a minha existência eréctil,
e apercebo-me da imensa
fragilidade de tudo isto.


in Registo de Nascimento, Livrododia, 2005

15.8.11

Aviso prévio

Instruções para compor poemas foi, durante bastante tempo, o título provisório do livro que viria a ser Registo de Nascimento. Não tanto pelo poema, mas pela ideia que agrega. Seguramente, não seria minha ideia instruir fosse quem fosse sobre a composição de poemas. Pelo contrário, a necessidade de pensar sobre essas mesmas instruções, uma busca de um regulamento possível no momento prévio da escrita. A frase caiu do título e caiu aqui. Serve assim este aviso prévio para, mais do que falar de poemas, explicitar quase tudo sobre títulos.

13.8.11

Descobri que todo o mal da humanidade resulta do facto de o homem não ser capaz de se sentar quieto numa sala.

Blaise Pascal

12.8.11

Da injustiça da reescrita

Compreendo a injustiça da reescrita. Se por um lado o sentimento já nasceu transformado no encontro do papel, a limpeza das suas arestas tornou-o generalizado, se bem que ainda perceptível ao objecto desejado. Voltar anos depois, significa submetê-lo à mais crua das razões. O texto já não é agora do momento em que nasceu, mas sim uma revisão severa de tudo o que aconteceu depois. Esquecemos palavras que foram importantes, atropelamos coisas como olhares que não podem ser reescritos, apenas para suceder no advento da personagem. Sim, eu compreendo a injustiça da reescrita. Mas não me queiram fácil e acessível às vossas mãos. Isto sou apenas eu a deitar pedras no caminho. Eu, a falsificar um pouco mais a ideia que tu, leitor, possas ter de mim. 

11.8.11

História (2011)

Sei agora que não há escrúpulos
no silêncio
e que só a sede resiste
noite fora.
As carícias ensaiadas soam
falsas,
tal como as palavras recriadas
como drama.
Engraçado como trago pormenores,
a tua cintura,
as tuas mãos,
o teu desejo humilde,
e como isso só serve para
memória
(se eu sempre soube que a realidade
é outra história).

10.8.11

sem título (2007)

1
Há uma luz esguia ao fundo da cidade.
Talvez não o reconheças, mas o fundo da cidade está arrumado depois da estrada.
Seguimos sempre as placas, como se desejássemos viver pelas normas, pelas autoridades parentais
e depois chegamos ao fim pensando, sou crescido, mas não sei.
Aparece então, no lugar do silêncio, essa luz esguia,
olhos que brilham na sala escura
e mais uma vez retorna ao pensamento, não sei.

2
Os homens conversam na soleira da porta.
Lá fora os cães, as crianças correm.
É sábado de tarde, sopra uma brisa.
Os homens falam dos seus assuntos,
ligeiros, as crianças inventam os seus jogos,
cada vez mais sérios. Dentro das casas,
as mães sopram o vapor dos bolos acabados de cozer
e a televisão canta músicas muito calmas.
Os homens conversam na soleira da porta.

3
A meio da noite disse, romperam-se as águas,
e ele, sem saber porquê, acendeu a luz,
procurou os óculos em cima da mesa-de-cabeceira.
Uma luzinha reflectia nos olhos dela,
percebia-se como estava assustada.
É agora, pensou. Levantou-se da cama
e foi ser pai pela vida fora.

4
Quando se entra na casa,
ouve-se um burburinho quase cego vindo de um dos quartos.
O que poderia ser alguém a rezar o terço, num murmúrio afogado de divino,
o que poderia ser um gemido adolescente solto no calor da própria descoberta,
é, enfim, um pequeno rádio que pretende resistir à morte
encontrando energia em pilhas há muito gastas.
Abrindo a porta do quarto, sabe-se como os seus olhos brilham perante os jornais desportivos,
com as fotografias e as listas infindáveis de nomes de jogadores.
Agarrado ao jornal com as duas mãos, cheirando-lhe a tinta,
adormecia a ouvir os relatos num  pequeno transístor.

5
Costumava ficar fechado no quarto
a ouvir as conversas e os risos dos mais velhos,  na sala.
Não se consegue perceber se sofria ou não.
Gosta de estar sozinho, dizia a mãe;
Comporta-se como um tipo crescido, pensava a avó.
Entre os homens grandes cultivara-se o silêncio e a incompreensão.
Se o avô respeitava o pacto também com o pequeno,
por talvez ser presença de lucidez naquela casa,
o pai usava-se do filho constantemente para se fazer valer homem.
Não podes isto, não serves para aquilo.
O pequeno costumava ficar fechado no quarto, a ouvir.
E os grandes não tinham medo que ele deixasse de sentir.

6
Quinto esquerdo. É de noite.
Fechado no quarto ouve gemidos de boca tapada.
Enrola a cabeça debaixo do cobertor, mas não adianta.
Não adianta mesmo.
Parece que o gemido ecoa, já não fora do quarto,
dentro da sua cabeça.
Minutos depois, portas a bater, mãos lavadas na casa de banho.
Adormecer a odiar a higiene.

7
Quase sempre, uma estranha noção do amor.
Nas suas maneiras de vestir, nos seus avisos de chegada,
quase sempre um amor maltratado, embrutecido, conflituoso,
pedra de lágrimas, animal.
Quase sempre, os homens. Calças vestidas na ausência dos sentidos,
uma eterna saudade de um colo materno utópico.
Quase sempre, no amor, o não saber como o fazer.

8
Em infinita discussão contigo mesmo,
estudas o manual de gestão de acidentes pessoais.
Nas paredes aparecem-te escritas as mensagens
que a ti próprio envias. Como se não pudesses esquecer
que és tu, nas tuas próprias mãos, quem te vale.



In Pequena Antologia para o Corpo, Ayuntamento de Punta Umbria, 2007

9.8.11

Outro lado (2005)

quando se entra na casa,
ouve-se um burburinho quase cego vindo de um dos quartos.
o que poderia ser alguém a rezar o terço, num murmúrio afogado de divino,
o que poderia ser um gemido adolescente solto
                                                                        no calor da própria descoberta,
é, enfim, um pequeno rádio que pretende resistir à morte
encontrando energia em pilhas há muito gastas.
abrindo a porta do quarto, os olhos acomodam-se ao escuro
e o relato do futebol aparece já infiltrado na decoração.

quase sempre, uma estranha noção do amor.
nas suas maneiras de vestir, nos seus avisos de chegada,
quase sempre um amor maltratado, embrutecido, conflituoso,
pedra de lágrimas, animal.
quase sempre, os homens. calças vestidas na ausência dos sentidos,
uma eterna saudade de um colo materno utópico.
quase sempre, no amor, o não saber como o fazer.

há uma luz esguia ao fundo da cidade.
talvez não o reconheças,
                                mas o fundo da cidade está arrumado depois da estrada.
seguimos sempre as placas, como se desejássemos viver pelas normas,
                                                                             pelas autoridades parentais.
e depois chegamos ao fim pensando, sou crescido, mas não sei.
aparece então, no lugar do silêncio, essa luz esguia,
olhos que brilham na sala escura.
e mais uma vez retorna ao pensamento, não sei.

ensaiámos sinfonias de carícias quando ainda só palavras nos podiam servir
e acabámos muitas vezes por adormecer ao som dos vizinhos que partiam
                                                                                                 para o trabalho.
fizemo-nos andar de olhos vermelhos pela rua e adormecemos, outras noites,
nos braços incrédulos de quem mais nos amava.
a tudo isso dedicámos um silêncio escrupuloso
e desenhámos notas nos cadernos de música amarelecidos.
enfim, a sorte, ou o automóvel, ligou-nos os dedos como se cosem as meias:
com linha forte e para sempre.
agora dormimos noites pelos sofás, sinais de camas proibidas,
e aceitamos os erros um do outro, quando nada se aceita de um amor.
para não cairmos em tentação,
                                        fechamos os olhos e olhamo-nos em intermitência.

quis saber da cor cinzenta do nosso último beijo,
alaranjado pelos candeeiros da tua rua fria,
dia de chuva que anoitece.
quis saber dos teus dedos enrolados nos cabelos,
uma brisa de perfume no meu sono ofertado
e deixei-te sair como quem parte.
fiquei ainda no silêncio do carro a ver-te entrar no prédio.
não sei se percebeste que sorria.

eu vou-te dizer sem maiúsculas,
o que será de nós em tantos anos,
vou fazer um gesto sem pronúncia
e inventar o voo dos coelhos.
vou-te dizer o tamanho da morte,
vou-te criar, assim, em palavras,
e depois
serei contigo o silêncio, todos os dias, as manhãs.
e ainda incluo no cardápio, a prosa, o amor, um penso rápido.


in Registo de Nascimento, Livrododia, 2005.

8.8.11

atrapalhados (2004)

Ensaiámos sinfonias de carícias quando ainda só palavras nos podiam sorrir e acabamos muitas vezes por adormecer ao som dos vizinhos que partiam para o trabalho. Fizemo-nos andar de olhos vermelhos pela rua e adormecemos, outras noites, nos braços incrédulos de quem mais nos ama. A tudo isso dedicamos um silêncio escrupuloso, desenhando outras notas nos cadernos de música amarelecidos. Enfim a sorte, ou o automóvel, ligou-nos os dedos como se cosem meias: com linha forte e para sempre. Agora dormimos noites pelos sofás, sinais de camas proibidas, e aceitamos os erros um do outro, quando nada se aceita de um amor. Para não cairmos em tentação, fechamos os olhos e olhamo-nos em intermitência. 




in Esferovite

6.8.11

A poesia costuma ser introduzida no espírito humano como um apêndice, um apêndice de ideias, de sentimentos, até da própria História – penso na escola, penso nas antologias temáticas, e penso nos recitais, onde muitas vezes, mais ainda que no teatro, a voz é quase tudo e o discurso poético quase nada. E assim não admira que muita gente culta, inteligente e interessada pelos fenómenos da língua, seja (no sentido próprio do termo) alérgica à poesia.

Alberto Pimenta, O Silêncio dos Poetas

5.8.11

A impossível versão possível

A impossível versão possível força a entrada no teu esforço. Procuras entre os versos uma linha que te seja hoje aceitável. Mas nada. A maioria das palavras são um processo passado, uma estante arrumada. Limpar o pó seria mais que insuficiente. Decides então retirar apenas aquilo que te pudesse, num outro futuro, interessar. A impossível versão possível é um testemunho que guardas. Uma recordação. Nada que agora te tenha utilidade. Mas que vais guardar. Talvez um dia.

4.8.11

Dual (2011)

a)
Há uma luz esguia ao fundo da cidade,
talvez te seja difícil de reconhecer.
Seguimos sempre as placas,
como se desejássemos viver pelas normas,
pelas autoridades parentais
e depois chegamos ao fim pensando,
sou crescido, mas não sei.
Aparece então, no lugar do silêncio,
essa luz esguia,
olhos que brilham na sala escura.
E, uma vez mais, não sabes.

b)
Os homens conversam na soleira da porta.
Lá fora os cães, as crianças correm.
É sábado de tarde, sopra uma brisa.
Os homens falam dos seus assuntos,
ligeiros, as crianças inventam os seus jogos,
cada vez mais sérios. Dentro das casas,
as mães sopram o vapor dos bolos acabados de cozer
e a televisão canta músicas muito calmas.
Os homens conversam na soleira da porta.

3.8.11

Ladainha (2011)

Os homens conversam na soleira da porta.
Na soleira da porta, os homens conversam.
Pelo quintal, os cães, as crianças, correm.
Pelo quintal, à hora do sol.

Uma brisa sopra, aliviando o Agosto.
Um Agosto inteiro de merecido descanso.
Pelo quintal, o remoinho dos pequenos.
Pelo quintal, o ladrar simpático.

Os homens falam dos seus assuntos.
As crianças inventam os seus jogos.
Lá dentro, um cheiro de bolos cozendo.
Lá dentro, as mães soprando os dedos.

Os homens conversam na soleira da porta.
Na soleira da porta, os homens conversam.
Lá dentro, a televisão cantando.
Lá dentro, as mães que sonham.

2.8.11

(sem título) (2007)

1
Há uma luz esguia ao fundo da cidade.
Talvez não o reconheças, mas o fundo da cidade está arrumado depois da estrada.
Seguimos sempre as placas, como se desejássemos viver pelas normas, pelas autoridades parentais
e depois chegamos ao fim pensando, sou crescido, mas não sei.
Aparece então, no lugar do silêncio, essa luz esguia,
olhos que brilham na sala escura
e mais uma vez retorna ao pensamento, não sei.

2
Os homens conversam na soleira da porta.
Lá fora os cães, as crianças correm.
É sábado de tarde, sopra uma brisa.
Os homens falam dos seus assuntos,
ligeiros, as crianças inventam os seus jogos,
cada vez mais sérios. Dentro das casas,
as mães sopram o vapor dos bolos acabados de cozer
e a televisão canta músicas muito calmas.
Os homens conversam na soleira da porta.

3
A meio da noite disse, romperam-se as águas,
e ele, sem saber porquê, acendeu a luz,
procurou os óculos em cima da mesa-de-cabeceira.
Uma luzinha reflectia nos olhos dela,
percebia-se como estava assustada.
É agora, pensou. Levantou-se da cama
e foi ser pai pela vida fora.

4
Quando se entra na casa,
ouve-se um burburinho quase cego vindo de um dos quartos.
O que poderia ser alguém a rezar o terço, num murmúrio afogado de divino,
o que poderia ser um gemido adolescente solto no calor da própria descoberta,
é, enfim, um pequeno rádio que pretende resistir à morte
encontrando energia em pilhas há muito gastas.
Abrindo a porta do quarto, sabe-se como os seus olhos brilham perante os jornais desportivos,
com as fotografias e as listas infindáveis de nomes de jogadores.
Agarrado ao jornal com as duas mãos, cheirando-lhe a tinta,
adormecia a ouvir os relatos num  pequeno transístor.

5
Costumava ficar fechado no quarto
a ouvir as conversas e os risos dos mais velhos,  na sala.
Não se consegue perceber se sofria ou não.
Gosta de estar sozinho, dizia a mãe;
Comporta-se como um tipo crescido, pensava a avó.
Entre os homens grandes cultivara-se o silêncio e a incompreensão.
Se o avô respeitava o pacto também com o pequeno,
por talvez ser presença de lucidez naquela casa,
o pai usava-se do filho constantemente para se fazer valer homem.
Não podes isto, não serves para aquilo.
O pequeno costumava ficar fechado no quarto, a ouvir.
E os grandes não tinham medo que ele deixasse de sentir.

6
Quinto esquerdo. É de noite.
Fechado no quarto ouve gemidos de boca tapada.
Enrola a cabeça debaixo do cobertor, mas não adianta.
Não adianta mesmo.
Parece que o gemido ecoa, já não fora do quarto,
dentro da sua cabeça.
Minutos depois, portas a bater, mãos lavadas na casa de banho.
Adormecer a odiar a higiene.

7
Quase sempre, uma estranha noção do amor.
Nas suas maneiras de vestir, nos seus avisos de chegada,
quase sempre um amor maltratado, embrutecido, conflituoso,
pedra de lágrimas, animal.
Quase sempre, os homens. Calças vestidas na ausência dos sentidos,
uma eterna saudade de um colo materno utópico.
Quase sempre, no amor, o não saber como o fazer.

8
Em infinita discussão contigo mesmo,
estudas o manual de gestão de acidentes pessoais.
Nas paredes aparecem-te escritas as mensagens
que a ti próprio envias. Como se não pudesses esquecer
que és tu, nas tuas próprias mãos, quem te vale.



In Pequena Antologia para o Corpo, Ayuntamento de Punta Umbria, 2007