16.3.17

Ferida nas asas

Ficaste cheio do cheiro a liberdade
não queres o campo, recusas a cidade.
Sabes quão feias as mentiras são,
não dás o céu, não chores pelo chão

Partiste cedo e cedeste à ausência, 
seres como és é para ti violência.
Sabes quão feias as verdades são
já foste ao céu, ficas bem no chão. 

Refrão: 
E olha, para mim, 
no espelho que ainda tens em casa
Olha por mim, 
não voo,  estou ferida nas asas. 

não voo,  estou ferida nas asas. 

15.3.17

Crime e Castigo

Vai dar trabalho estarmos vivos
Ou escondermos a solidão
Se cada noite é um castigo
Muito maior é o perigo
De ter-te assim  à mão

Vai dar trabalho sermos unidos
Ou tentarmos a ilusão
Se cada dia é um abrigo
Em que quero estar contigo
Desfazendo a tentação

Que espécie de sal
Sobrará no final,
Nós tão ágeis, criativos
Escolhemos crime ou castigo
Escolhemos o quê,
Afinal?

(2010)

14.3.17

Final da inocência

Como quem se atira
De encontro a um espelho
Aqui me surpreendo
Na antecâmara da minha loucura
Vai formosa
E insegura.

Eu recolho as palavras
Quando nascem da tua boca
E colecciono cada gesto
Inventado na tua ternura
Tão selecta
E bem segura.

Sente-lhe o calor
Tão mais perto do inferno
Abrasa-te os sentidos
Tamanha é a imprudência
Vai formosa
E tão segura

No final da inocência

(2010)

13.3.17

Baile de Sol


Usa o meu corpo
Para o teu baile de sol
E na noite eu sou farol
Do desejo

Vem num arrepio
Acender a minha pele
Nesta guerra sem quartel
Definido

Traz as tuas mãos
Para a roda da ternura
E conquista-me a cintura
Nesta dança

Bebe dos meus lábios
Oceanos de prazer
E na noite eu vou ser
Toda tua

Ainda sou feitiço desta noite
em que descubro o prazer
De ser
Em ti

Ainda sou loucura deste sol
onde eu fervo só pra
te ter
a ti

(2010)

11.3.17

Onde não estás

Onde eu te toco
É onde o silêncio existe
Antes da explosão

Onde a pele se desoculta
Mesmo se para lá
De todas as fibras

Onde os dedos
Ainda caminham
Na geometria do teu pescoço

Onde tu não estás
Eu sei
É o encontro
Do que faz
Sentido
Para mim
Ter-te assim
Onde tu não estás.

Onde eu te beijo
É onde o deserto desiste
Antes do aguaceiro

Onde tu permites
Que descaia breve
A mansidão do gesto.

Onde os lábios
Se reencontram

Com a geometria do teu pescoço.

(2010)

13.1.17

Ator secundário

Tu perdes todos de quem gostas, ao ritmo das rodas-dentadas da carruagem, num comboio com destino para lugar algum. Era ele o homem perdido que caminhava em busca de uma coisa que ninguém por perto compreendia. Talvez por isso parecesse sempre tão calado, tão sentido, tão ausente. O seu mundo era um outro, onde vestia a casaca de uma personagem e o ser estranho era uma espécie de cartão-de-visita para o mundo. Tu perdes todos de quem gostas, cantavam-lhe ao ouvido, como há certas músicas que não conseguimos tirar de dentro da cabeça, como há memórias de que não nos sabemos proteger. O comboio seguia, num homem de face imperturbável, pronto a ser herói da sua causa: ator secundário da história do mundo.

12.1.17

No tempo das fotografias

Sentia-se puxado para dentro das fotografias e, consoante a época, cada uma das imagens gerava em si sensações distintas. As fotos do início do século provocavam-lhe uma sensação de miséria, como se a fome lhe crescesse dos olhos. Pelos anos cinquenta, sentia já alguma capacidade de esperança, mesmo que toda a esperança o faça chorar. Nas fotos mais recentes, dos anos setenta, a sua empatia com aquelas ruas amplas e limpas permitiam-lhe respirar. Ainda assim, uma sensação qualquer de fim-de-semana isolado, de dia de visita ao belo construído, não uma vivência diária. Porque o dia-a-dia seria, com certeza, uma prisão. Uma prisão de onde lutaria para sair, apenas para se sentir mais preso a seguir. A fuga, no tempo das fotografias, não seria possível.