31.12.13

Fim de ano

Enquanto a minha escrita se encaminha para a sua morte, eu sigo para outra vida.

30.12.13

Anónimo

Na cena do acidente ficou um pequeno vestígio de sangue que nenhum teste conseguiu identificar. Poucos acreditam, no entanto, que o anónimo seja um sobrevivente.

27.12.13

Cão

Os olhos do cão seguem-me pela sala, num silêncio feito apenas da sua respiração cada vez mais ansiosa. Mais um dia que passa, igual. E o cão que não ladra.

26.12.13

Árvores

Como as árvores que, ao longe, passeiam vagarosas pela tarde, ainda que tenham os pés presos no chão.

25.12.13

Natal

Não escreverás no dia de natal. Para que a frase não tenha o óleo dos fritos, nem um papel de presente amarrotado se intrometa no ritmo dos teus desejos.

24.12.13

Festas

O mundo não foi feito para se desejar boas festas. Que as festas sejam boas é apenas o sintoma de que as coisas correm como deveriam correr.

23.12.13

Falta

O Doutor não queria deixar a filha à espera na porta do Colégio. Por alguma razão, parecia-lhe propício que ela não experimentasse a ansiedade da falta momentânea.

20.12.13

Vento

Ainda procura em tudo a poesia do mundo. E a cada passo ela foge-lhe, como se o vento não estivesse interessado em que homens e sonhos se encontrassem.

19.12.13

Dor

Também ele chorou e tremeu, pensando que o amor só seria justificado se passasse pelo sofrimento. Ainda não sabia que, quando dói, não é amor.

18.12.13

Prova

Mesmo desinspirado, atiras-te, uma e outra vez, às palavras, à folha em branco. Cansas-te e desgastas-te, à procura de qualquer coisa que não existe. Queres fazê-lo, não por mais nada, apenas para dares prova de como és mau.

17.12.13

Reescrever

Aprender a reescrever a viagem, não transforma a viagem. Apenas faz com que a entendas pelo caminho a seguir.

16.12.13

Espera

As palavras escritas na parede acabaram por desaparecer. Alguma lavagem mais decidida, talvez. No entanto, não devemos ficar tristes pelo que desaparece. Sim, esperançosos com o que nos espera.

13.12.13

Insondável

Gastou então o tempo a apalpar o próprio corpo, tentando entender de onde lhe chegavam as dores que parecia sentir. Não havia nada para lá da realidade do que se via de fora. Apenas essa ideia de perseguir o insondável.

11.12.13

Diálogo

Um diário não é um diálogo, disse-me alguém. Primeiro não percebi se se referia ao falar com as páginas do caderno, no que me parecia estar totalmente errada. Mas, depois, percebi. Guardar memória não passa por conversarmos connosco próprios. Isso é ficção. Daí o meu sossego.

10.12.13

Poética

Lembrei-lhe que, mesmo para se estar vivo, é preciso uma poética. Ele não percebeu.

9.12.13

Livro

Tinha uma noção meio desviada do poder das palavras. Recebia-as com algum desprezo. Entregava-as sem qualquer atenção. Estava vivo de mais para se perder num livro.

6.12.13

Realidade

Hoje é o dia em que tudo começa. O dia em que sabes não poder dormir. O dia em que tudo conta. E tu estás preparado. Cruzas os dedos, ranges os dentes, olhas fixamente. Na tua cabeça, tudo acontece uns poucos segundos antes da realidade. É só isso que é preciso.

5.12.13

Público

À frente da sua casa, corria livre pelo relvado. Sabia que nem ali estava solto das suas preocupações. Era apenas um regozijo municipal, uma espécie de colorido público da encenação da sua morte.

4.12.13

Cidadão

Limpava os dedos nas velhas calças de ganga. Comprava guerras com a sua própria saúde. Não tinha nome. Bebia o seu café e saía. Como um qualquer cidadão do mundo.

3.12.13

Silêncio

Foram alguns dias sem dores, outros tantos sem pensar, muitas horas sem querer, alguns minutos perdido. Foi apenas um silêncio. Já passou.

2.12.13

Frio

Podias ser mais frio, invernoso, aprender a chorar no tempo certo. Mas no teu boletim meteorológico, a previsão é sempre incerta.

29.11.13

Bicho

Olho o bicho assustado, vai no meio da estrada e não sabe ainda se estará vivo daqui a poucas horas. No entanto, no bicho há apenas um instinto, não lhe dói o passado, nem o futuro, não o perseguem as memórias do conforto, apenas as luzes dos automóveis.

28.11.13

Portas

Estamos habituados a viver assim, sempre à procura de uma porta aberta na rua deserta. Mas a vida, essa, não tem surpresas. As ruas desertas são, na quase totalidade das vezes, apenas ruas vazias. Sem portas.

27.11.13

Escrevo

Não sei explicar a prosa porque não há um outro sentido qualquer nas palavras, estejam elas como estejam organizadas no papel ou no ecrã. Não sei explicar nada mais do que o óbvio. Por isso, escrevo.

26.11.13

Doença

Recuperar a doença. Aprender a viver com ela. Desconfiar de todos os sinais do corpo. Reter, a cada gesto, o calendário do futuro.

25.11.13

Domingos

Uma rua ventosa, um dia de inverno, uma conversa de café. Domingos cheios de nada, apenas sorrisos breves, ensaios de felicidade.

24.11.13

Caixão

Se lhe perguntam pelos livros, encolhe os ombros. Não quer saber. Prefere inventar diários, fumar cigarros, beber-se a si próprio. Sem o esforço de mastigar a madeira do próprio caixão.

22.11.13

Desesperados de espírito - V

Aprendeste a cortar as veias
acordas leve
sais de casa.

Eu sou a caixa onde guardas
as coisas pífias
como o chorar.

21.11.13

Desesperados de espírito - IV

Cobrimos tantas vezes a pele
de tinta de canetas esquecidas
nas mesas das salas de aula.
O nosso sangue era falso
o que podíamos esperar?

20.11.13

Desesperados de espírito - III

Éramos como todos os outros
desesperados de espírito,
Não sabíamos que o futuro
tinha portas por abrir.

19.11.13

Desesperados de espírito - II

Lembro os dias
de lamber feridas
feitas nas paredes
rugosas da escola.

Lembro os dias
sem sorrir.

17.10.13

16.10.13

Poesia e Trabalho

Aquele poema de que me esqueci
tão certo e completo
em todas as circunstâncias
do encontro entre
palavra e mundo
terá sido finalmente escrito
por um outro poeta
mais ciente do seu labor

do que eu.

15.10.13

Inspiração e Intenção

Raramente conto
com a inspiração.
Do muito que transpiro
resumo aos poucos
a minha intenção.

14.10.13

Plano e Transgressão

Há que desenhar o plano
e cumpri-lo na perfeição
para que no fundo das horas

se ilumine a transgressão.

11.10.13

O mar está cheio de corpos - V

Enquanto estivermos à margem
estará o mar

cheio de corpos.



A partir de e dedicado a Henrique Fialho.

10.10.13

O mar está cheio de corpos - IV

A história nunca acaba -
não se desalinham as marés.



A partir de e dedicado a Henrique Fialho.

9.10.13

O mar está cheio de corpos - III

Não se salva nunca o homem
apenas

a sua última palavra.



A partir de e dedicado a Henrique Fialho.

8.10.13

7.10.13

O mar está cheio de corpos - I

Mesmo no mais escuro breu
descobriremos um farol.


A partir de e dedicado a Henrique Fialho.

6.10.13

Porque paramos a olhar para uma fotografia?

Porque paramos a olhar para uma fotografia? Porque nos lembra um indefinido momento em que alguém, entre a preocupação de fixar o momento e a velocidade do seu próprio pensamento, deixou que fosse a lente a decidir o que é, afinal, a posteridade.


Título: Tirado no Tejo de Vila Franca para o Cabo no dia 1 de Maio [Material gráfico] Autor(es): fot. Foto Rocha Publicação: 1949 Descrição Física: 1 prova fotográfica : castanho ; 6 x 9 cm Notas: Papel Ridax. - No verso: carimbo quadrangular ao centro "Foto - Rocha / T. Vedras". - Também no verso, manuscrito a tinta azul: "Tirado no Tejo de Vila Franca / para o Cabo no dia / 1 Demaio / 1-5-1949 / Torres Vedras". - Digitalização : BMTV Espólio de Adão Carvalho/ Biblioteca Municipal de Torres Vedras.

4.10.13

Países do Sul

Não escrevo mais
poemas de amor.
Mas também
não teço considerações
sobre a economia
dos países
do sul
de mim.

3.10.13

2.10.13

Perder/ Ganhar

Um dia decides ir a jogo
para perder.

E logo aumentam as tuas chances
de ganhar.

30.9.13

Aviso

Não vais estar sozinha
no dia em que a chuva
cair sobre o telhado
nem irás chorar tanto
que possas inverter

o natural sentido das águas.

20.9.13

O retrato - IV

Do teu silêncio
fiz meu hábito
e também
algum consolo.

Do retrato
um argumento
contra a solidão
e o esquecimento.

19.9.13

O retrato - III

Quero amá-lo, de verdade,
ao teu retrato,
essa imagem onde
não dás cara
nem olhar,
só abandono.


18.9.13

O retrato - II

Já não existem gavetas
para retratos como o teu.
Mas ainda sobram memórias
onde os sonhos adormecem
esperando pelos olhares
que os façam acontecer.

17.9.13

16.9.13

O querer


Porque tantas vezes
o querer
foi em sentido
contrário,

como nulas
as lembranças
em mim deixadas
pelos teus dedos,

talvez calor,
ou que eu me queime,
solucione
quantos versos

eu escrever
no teu futuro.




Foto: Sofia Martins Baleia

6.9.13

Porque um dia
esse poema
foi escrito
para ti.

E foi por isto
que o escrevi.

5.9.13

Dizem que o fogo
purifica
mas eu sou difícil de
pegar.

Eu sei, querias ver-me
por aí a alastrar,
mas eu sou mais
de ficar quieto
 no lugar.

3.9.13

Estava longe,
muito longe
de casa.
A esse lugar,
abaixo de zero,
chamou casa.

2.9.13

30.8.13

A história do mundo contada por computadores - 5

Isto são tudo números
e os números não enganam.
As pessoas sim.
Com dez dedos
em busca incessante
da felicidade

digital.

29.8.13

A história do mundo contada por computadores - 4

Um computador já pode simular
o cansaço – da mesma maneira,
tu te deitas e levantas como se
nada fosse.
Uma pergunta tanta vezes ignorada
é também uma resposta mal dada.

28.8.13

A história do mundo contada por computadores - 3

A história do mundo não é
a tua história.
Sabes isso, mas não sabes.
Ignoraste sempre os fins
de modo a aproveitar os meios.
No pouco que dormias
encenavas, finalmente,
o muito que sorrias.

27.8.13

A história do mundo contada por computadores - 2

Tentaste refazer o mundo
exatamente, peça a peça,
a partir do pouco que vivias
em forma de não-vida possível.
Cedo percebeste que algo novo
podia inventar-se, ao menos se.
E se, logo depois, aconteceu.

26.8.13

A história do mundo contada por computadores - 1

Antes do império
ou depois do império
não sei bem
ao certo –
tudo era longe
para o perto
que eu buscava –
e não era filosofia,
era, talvez, miopia.
Dizia eu,
antes do império,
era apenas o desconhecimento.
A felicidade
não se escrevia
com os dez dedos

das mãos.

23.8.13

ideias para um conto - 5

O fornecedor de histórias. Um escritor já com longo currículo tem, por obrigações contratuais, que entregar um romance até final do ano. Visto que há uns meses que tenta, sem sucesso, elaborar um texto, decide desistir e deixar o mundo da escrita, quebrando, inclusive, o contrato.
Ao abandonar o seu escritório é abordado por um homem que lhe entrega um manuscrito de um romance, pedindo-lhe uma opinião. Anunciando a sua decisão de abandonar a literatura ao desconhecido, logo esse homem se propõe a continuar a obra do escritor.
Aceite a impensável proposta, o desconhecido entrega, regularmente, novos romances para que o escritor continue a publicar. Há, no entanto, um problema. Cada romance é uma cópia de um anterior romance do escritor e vem sendo entregue na ordem inversa à da sua publicação.
Adivinha-se um novo final de carreira.

22.8.13

ideias para um conto - 4

O escritor da lentidão. Um escritor que escrevia muito lentamente, a cada dia escrevia, ora uma pequena frase, uma palavra ou mesmo só uma letra. (não passava, no entanto, nem um dia sem escrever, pois deixaria de ser escritor e esse não o seu objectivo). Era um escritor da lentidão, um escritor que nunca havia terminado o seu primeiro livro.

21.8.13

ideias para um conto - 3

Numa conferência literária na Universidade, um famoso orador adormece logo após o início da sua comunicação. Sendo um professor muito conceituado e respeitado, os presentes, numa sala cheia, parecem ter todas as reservas em acordá-lo. Então a conferência continua, no sono do orador.

20.8.13

ideias para um conto - 2

Em hora de arrumação no hotel, a empregada de limpeza bate à porta de um quarto, e, para além de nada parecer ter sido tocado durante a noite, encontra um manuscrito pousado sobre a cama. Na recepção confirmam a entrada de um homem nesse quarto, clientes dos quartos contíguos dizem ter ouvido ruídos de dentro do quarto durante a noite. Nada parece tocado, no entanto. A empregada de limpeza volta ao quarto e começa a ler o texto.

19.8.13

ideias para um conto - 1

Num encontro de escritores, um autor estrangeiro, famosamente cultor do mistério nas suas aparições públicas, perde as placas identificativas do seu nome. Alguém, no seu lugar, se apresenta então no encontro, provocando os restantes participantes, gritando, agindo sempre nos antípodas da sua fama. Quem era esta personagem? Porque ninguém o desmascara? E o que foi feito do verdadeiro autor?

16.8.13

O olhar

Como um relógio
insistindo em acertar
o que não pode
ser certo,
assim o olhar
para o olhar
avança.

15.8.13

Entre os sentidos das palavras ditas, as intenções, nos olhares, se marcam.

14.8.13

O rosto

Para desenhar com a ponta
dos dedos ou,
um dia,
acariciar com o risco
dos lábios –
o rosto foi-se fazendo
material –
sólida resposta
ao secular enigma.

13.8.13

A infância

Albergue de memória
e sentimentos
tem espaço ainda
para envolver –
num abraço terno
e caloroso –
quem vier sincero
e sorridente,
um coração amante.

12.8.13

A videira

Respira solene
à beira do caminho
como se alimentasse
em silêncio
os pequenos bagos de uva
que se transformarão
em vinho.

11.8.13

Era de noite

Era de noite e todas as palavras se inventaram.
Ao gosto do que quisemos acreditar nos conformamos
e nem a manhã apagou a sensação de algo raro ter acontecido.
Mas a força da razão combate o sonho. 
E o sonho resguarda-se no terreno da imaginação.

10.8.13

A cada manhã, uma colher de ideologia.
Imagine, amigo, o bem que lhe faria.

9.8.13

8.8.13

Aquele álbum de verão (21)

Em cima do palanque
o conjunto ensaia
enquanto a vocalista,
qual rainha,
se deixa pentear
sem fazer gesto.

7.8.13

Aquele álbum de verão (20)

A aldeia engalanada espera
ao sol
e a banda passa no largo
transportando o pendão

até casa do futuro padrinho.

5.8.13

Aquele álbum de verão (19)

Deixei-me revelar;
parte da minha missão
aqui
é esforçar-me por iludir
a minha própria ilusão.
E tu ficaste ao meu lado.

3.8.13

Aquele álbum de verão (18)

O desejo das moças de família
é igual ao desejo das outras
- a porta será sempre
serventia da casa.

2.8.13

Aquele álbum de verão (17)

Olhas para o que é diferente
de todos os outros domingos
da tua vida.
Bem-vinda a um mundo

que está prestes a acabar. 

31.7.13

30.7.13

Aquele álbum de verão (15)

Uma face mostra a timidez
que insiste em esconder-se
ao revelar-se
- complicadas equações
numa tarde de verão.

24.7.13

Aquele álbum de verão (12)

Jovens de calções
passeando pela cidade
enquanto as nuvens cobrem
o céu que um dia

foi azul.

23.7.13

Aquele álbum de verão (11)

Turistas de França
numa paragem da autoestrada
olhando um carro
topo de gama
enquanto moscas

pousam nas sandes.

19.7.13

Homem

A pele curtida
por muitos verões
o sorriso de dentes
gasto
o olhar no mar
perdido.
Apenas um homem
mais,
a lutar contra as marés.

18.7.13

Palavra

No meio do álbum
queria deixar uma palavra
uma palavra apenas
escrita, definitiva, sobre a pele do livro.
No entanto, entre carícias,
a palavra ficou esquecida,
a página em branco
no álbum que, sem acabar,
nem meio terá para encontrar.

16.7.13

Liberdade

A criança corre para a chuva,
uma chuva quente
em pleno julho.

A mãe grita, o pai sorri,
e ambos sabem:

a criança apenas ensaia
a liberdade.

15.7.13

12.7.13

Aquele álbum de verão (5)

Aos quarenta e três anos
desejas como as raparigas
mas não disfarças
como elas.

És sincera
numa geografia
onde a sinceridade

não vale nada. 

10.7.13

Aquele álbum de verão (3)

Um homem a perseguir
uma juventude perdida
na filha que já completou
dezasseis anos

e o odeia.

9.7.13

Aquele álbum de verão (2)

A testa suada
os pés gelados
na água.

As palavras roubadas
de bocas tímidas
onde o silêncio

não é opção. 

8.7.13

Aquele álbum de verão (1)

Uma mãe
a caminho da praia
com duas crianças
fugindo-lhe das mãos.
A aparente felicidade
não esconde o medo
de, num ápice,
uma delas lhe fugir

para a morte.

28.6.13

Rasgo

Rasgavam-se as camisas
e era o vento.
As ideias espalhadas
como mensagens
que ninguém lê.
Rasgavam-se as cabeças

e era o vento.

27.6.13

Luz

Sinal de aurora
nervo preciso
no extremo da lâmina

Uma seara
um pássaro escuro
grito sereno

Corpo lívido

luz

26.6.13

Dor

O que sabes da dor
é pouco mais
que a sua origem.

O que sabes de ti
é bastante menos
do que isso.


25.6.13

O verão era

O verão era um labirinto
podias entrar
mas não sair
até que todas
as paredes
caíssem
de gastas
e tu
estivesses já
bem para lá
de tudo isso.

24.6.13

Estrada secundária

Baixou já o sol
sobre a terra
mas ainda não
o nome das coisas

Por uma estrada
secundária
movem-se, lentos,

olhares de sono. 

21.6.13

20.6.13

Calhau


Um dia dediquei-me a plantar
calhaus sobre o oceano
sem pensar que o futuro
me obrigaria a colhê-los.

O tempo nada sustém
e eu com ele vou.

Um dia dediquei-me a colher
os calhaus do oceano
sem pensar que o passado
não era responsabilidade minha.  





19.6.13

Pedra


Um coração feito pedra
só aspira ao infinito
calcado ininterruptamente
por aqueles desdenhosos
que não entendem
o bater das sensações

Um coração feito pedra
não repousa:
só sofre brutalmente
sem mais nenhuma esperança
para lá de um risco à superfície
feito pelos dedos dos amantes. 




18.6.13

Pureza


Delimitem-se as águas
as turvas das límpidas
as bruscas das serenas
procure-se só a pureza
do que tem mínimos
os traços.

E depois
deixe-se que o mundo 
acabe.



17.6.13

Separar



Separei a pedra da pedra
reparti o corpo
inventei a morte

em tudo deitei sal

e algures no infinito
como um coração que bate
ele voltou a nascer



14.6.13

Intervalo

Faço dois fim-de-semanas alargados de seguida e deixo tudo em suspenso para uma próxima vida. Uma vida que já não será minha quando eu voltar. Tudo será diferente, talvez não para melhor. E o que me alivia é o facto de eu estar, mesmo, a cagar-me para tudo isso.

13.6.13

Ressaca

O Santo António foi visto esta noite, amparado por dois jovens, a fugir do carnaval. Levava baton borrado perto dos lábios, o cabelo em desalinho. Não atende o telemóvel, não está para aturar seja quem for. Espera, enquanto o corpo vai soluçando sobre uma cama que mal conhece, que seja já de noite quando levantar o estore.

12.6.13

Simulação

Não perguntes o que poderias fazer por mim. Eu não quero. Não é isso que eu compro de cada vez que te pago um café. Enfio a cabeça no jornal e tento simular uma vida normal. A esses tudo se permite. Existam filhos, familiares, empregos das nove às cinco. Não perguntes o que poderias fazer por mim. Eu não quero.

11.6.13

Rewind - Play

Recebo-te uma e outra vez, as portas sempre fechadas e os olhos bem abertos, sem que nada eu possa ver. Recebo-te uma e outra vez, podias ter percebido como é triste esta repetição eterna dos mesmos discos pedidos, das mesmas dores no corpo, das mesmas sensações. Talvez tudo esteja gasto. No entanto, recebo-te uma outra vez.

10.6.13

10 de junho para sempre

Todos temos algo que chorar, é normal, mas se o teu coração, estrangeiro, pede uma revolução, enche-o de ar e deixa-o rebentar nas tuas mãos. Todos temos algo que chorar, é normal.

7.6.13

Vida

O sentido é procurar sempre algo novo, sobre o qual possas estender as tuas experiências. Repetir, o mesmo, até ao infinito, não é solução. Ponto.

6.6.13

Isso

Assim indefinido como isso. Fazer um resumo de uma semana que não existe. Compor uma música que não se ouve. Provar qualquer coisa que não se pode tocar. Enfim. Escrever o que não pode ser escrito na vida.

5.6.13

Morte

Já estou velho. Ainda sou novo. Porque os filhos. O marido. Coisas de família. Falta de vontade. Não sei bem o que quero. Aceito qualquer coisa. Não sei como fazer. Não sei como aguenta. As coisas estão como estão. Eu não estou para isso.

4.6.13

Armas

A palavra é uma arma com que podes atirar à cara de alguém. Também a podes sentir, sussurrada entre dentes, a afiar-se penetrante nas tuas costas. Assim se fazem das palavras rios de sangue metafóricos: gente que ainda caminha pela rua, mas já morreu.

3.6.13

Guerra Civil

Deixámos, há algum tempo, a civilidade. Provavelmente, à porta de algum Centro de Emprego. Na sala de espera, já os olhares são pesados e os corpos tensos. Entras para uma sala e o discurso eleva-se: as vozes serram como máquinas, as posturas ruborizam-se, as razões vão-se perdendo na procura de se ter sempre razão. Vivemos numa guerra entre civis, perdidos que estamos dos nossos lugares no mundo. Por sorte, poucos temos armas.

31.5.13

De mim

De mim sabem coisas que eu nem imagino, tão veloz se faz o tempo nos dias em que o corpo manda mais que a razão. De mim sabem coisas que resguardam, nos seus peitos, nos seus ódios, fazendo de mim construção longínqua do que sinto. De mim sabem coisas e calam-se. Como quem quer fazer morada de um silêncio mais profundo.

30.5.13

Sorriso

Da primeira vez, ela sorriu. Eu, que nunca sei o que fazer nos momentos certos, não. Acho que ela levou a mal. Fechou a cara para todas as vezes que se seguiram, fingiu não me reconhecer num dia de semana, parece até que se indignava com aquela minha falta de jeito. Até que eu aprendi a sorrir, mesmo quando sorrir me parece tão semelhante a atirar-me a um poço. E ela, sorriu de volta.

29.5.13

Nome

Não precisas de me dizer o teu nome, provavelmente não saberias como o fazer, tão distantes são as nossas línguas e os nossos entendimentos sobre como se montam os encontros das pessoas. Um homem que segue distraído, jornal na mão, uma mulher que segura uma mala e aproveita o vento que sopra na cidade. Não precisas de me dizer o teu nome, deixa-te só existir um pouco mais na minha memória.

28.5.13

Lume

Eu não tinha lume, mas aquele olhar sorridente parecia invadir a sala ao ponto de acender todas as pontas de cigarros. Era capaz de arriscar que seria a única vez que a veria. No entanto, um ou dois dias depois, ali estava ela, de novo, na rua, presença nova na vizinhança. Não me pediu lume. Apenas planou rua abaixo, com a leveza do início da primavera.

27.5.13

Silvas

Ao subir, fechou entre os dedos um ramo de silvas, contra a palma da mão, as lágrimas nos olhos, misturando-se com a terra que lhe riscava a face. Ao subir, o sol alto sobre a cabeça, o calor da vegetação, os risos cansados de quem por ali seguia. Hesitou apenas alguns segundos, será que se as apertar com mais força evitarei a comichão? Não foi capaz.

19.5.13

Uma semana a viajar no tempo


Esta semana a Revista Sítio vai jogar em casa. Durante seis dias, vou publicar ali textos de prosa, quase todos eles muito antigos (mais de dez anos, alguns), ficções tristes ou memórias poderosas, histórias trágicas que me fizeram sorrir. Uma viagem no tempo, a um tempo substancialmente diferente do agora. Um sinal de sobrevivência, talvez.


Para acompanhar, de 20 a 25 de maio, por aqui.

17.5.13

Fixo


Um olhar fixo num olhar fixo. Estado de choque permanente. Como numa luta para penetrar o coração do outro, sem qualquer artifício cirúrgico, apenas essa força de vontade de estar ali onde o outro começa. Um olhar fixo num olhar fixo. A tensão necessária para que, de dois, se faça um. 

16.5.13

Todo


Certos olhares nunca se fixam. Querem comer todas as coisas que acontecem à sua volta. Perante eles, ficas perdido. És apenas mais uma peça perdida do desconjunto do mundo. Acabarás também por fugir e talvez nem notem o vazio.

15.5.13

Fecho


Nos olhos fechados há a segurança. Se tudo se pode apagar perante a tua presença, em ti confiam e podes sorrir. Pena que do outro lado não vejam o sorriso. Mas sentem-no. Garanto-te.

14.5.13

Fuga


Nos olhos que fogem insistimos em acreditar. Seja a timidez que lhe toma a direção e não um qualquer desacerto das coisas do mundo contigo mesmo. Por isso acreditas, um pouco mais, ainda que entres no tempo em que nem em ti podes continuar a crer.

13.5.13

Brilho

Nos olhos que brilham encontramos razões para um novo encontro. Não futuro, mas presente. Porque está ali, na nossa frente, aquele olhar recetivo e que, em convite, nos pede que continuemos a ser quem somos.

10.5.13

Acordar


Quando, um dia, acordou, estava despenteado, a barba crescida e suja, o corpo amachucado. Dizia agora a toda gente que estava velho. Ofereceram-lhe uma camisa, um casaco. Reaprendeu a andar, a fazer-se gente. Disseram-lhe que o melhor era que falasse. Ele abriu portas, revelou-se. Pouco importava que ninguém o quisesse ouvir. Já tinha passado o tempo de viver adormecido. 

9.5.13

Água salgada


Um dia bebeu água salgada. E tanta água salgada bebeu que, dentro de si, se fez calo em todos os órgãos. Um órgão assim funciona ainda. Apenas tem mais dificuldades para sentir. Começa a aceitar que se lhe espetem facas. Começa a compreender que se lhe dirijam com murros. Começa a alimentar-se da vida causada pela dor. Um dia bebeu água salgada. E quando voltou a si, tinha-se feito mar.

8.5.13

Desistir


Um dia desistiu. E então começou a compreender. Ninguém gosta de quem está disposto a procurar. Quem vai, de caravela, para o mundo desconhecido, tem sempre muito o que encontrar. Ninguém gosta disso. Causa insegurança. Melhor quem fica dentro de uma pequena gaiola, olhando a vista desde a janela da cozinha. Por isso, um dia, desistiu. E partiu, não metaforicamente, em direção ao mar. 

7.5.13

Perdido


Um dia quis encontrar o caminho para o coração de alguém e ficou perdido. Passava o tempo a enfrentar os corações errados. Corações que não falavam. Corações que não entendiam. Corações que não ouviam. Corações que se afastavam, com medo de se perderem dentro de um coração mais forte. Um dia quis encontrar o caminho para o coração de alguém e, percebendo que só o podia fazer através da palavra, não sabia ainda que palavra utilizar. E, sim, ficou perdido.

6.5.13

Calado


Um dia disseram-lhe que o melhor que fazia era estar calado. Ele calou-se. Fez muitas estradas do caminho sem abrir a boca. Até que um dia aprendeu a falar. O estar calado tinha-o feito aprender as várias faces de cada palavra. Dominava-as, pelo menos, na teoria. Abrir a boca, era ainda um problema. Quando, finalmente, disse, ninguém o compreendia.

3.5.13

Varanda

Ficas sentado na varanda e esperas que a rua se transforme, como se transforma o teu pensamento, quando ficas sentado na varanda e esperas. Não sabes bem o que existe dentro da tua cabeça e o que existe fora dela, mas a varanda existe, e lá em baixo pessoas sobem e descem, como se as coisas mais importantes do mundo coubessem naquelas pequenas cabeças que olham, para um lado, para o outro, antes de atravessar a estrada. É curioso que por pouco movimento que a rua tenha, as pessoas insistem em olhar, a ver se vem carro. Nunca vem. Nunca vem. E, se vier, o mais certo é que atropele alguém.

2.5.13

O mundo

Mesmo que os dias sejam sempre de chuva, podes vir a perceber que a rotação do mundo não se faz só para um lado. A coisa balança. Umas vezes encontras quem não queres. Noutras és levado ao colo. É o mundo, pá. Para que queres complicar as coisas? Mesmo que os dias sejam sempre de chuva, o que é que te interessa. Batem-te à porta e é ela. Tem um sorriso tímido e limpo. Tu fazes-te à vida. É o mundo, pá.

1.5.13

A preto e branco



Uma bandeira a preto e branco, como a preto e branco o pensamento do meu país. Dessem-nos uns lápis de cor e aprenderíamos a pintar com as cores certas cada canto de tecido que se nos oferecesse, assim, monocromático. Mas o que fere o daltonismo imperante é a força com que o espelho se afirma nas suas distintas fuças. E mandam retirar bandeiras, gestos, sorrisos, alegrias. Para que a monotonia do timbre siga, bem disfarçada, por debaixo do vento que corre.


Foto da instalação de Paulo Mendes, retirada do projeto 1ª Avenida, antes da sua inauguração. Daqui

30.4.13

O saco


O que levas aí no saco? Tu, um gajo desse tamanho, levas isso no saco? A minha mãe acha que tu és intelectual, ela que não saiba que andas a brincar com carrinhos. Onde é que os arranjaste? A sério? O que disseste à tipa na loja? Ela não estranhou um gajo como tu andar a comprar carrinhos? O quê? Às pessoas, nas lojas, acontece-lhes de tudo? Mesmo assim, é difícil de perceber. Antes de entrares lá em casa tenta meter isso no bolso grande do casaco. 

29.4.13

Um táxi para quatro

Um táxi para quatro. A juventude perdida. A noite como as outras. O calor de verão numa cidade mínima. Nada que nos preocupasse. Um táxi para quatro. Direção ao mar. Era tudo o que pedíamos. Sem horas para chegar. Portas que se abrem. Bares que se descobrem. Alguém que nos recebe com surpresa. Um sorriso. Um aperto de mão. Um táxi para quatro. A névoa marítima. O não saber nunca quanto vale acordar na manhã seguinte.

4.4.13

Não feches os olhos


Não feches então os olhos,
não é sono
o formigueiro que toma
o teu corpo.

Não feches os olhos,
cerra antes os punhos
sobre o lençol quente
onde te deitas.

Não feches então os olhos,
abre o sorriso,
deixa-te ser brilho
no meu peito.

Não feches os olhos,
não temas a noite.
Dessas paredes despidas
inventaremos um horizonte.

3.4.13

Foram muitas as tardes


Foram muitas as tardes
que passamos em frente
à televisão, em casa
ou no café, a ver
a Volta à França.
Estranho pensar agora,
esse tempo nunca existiu.

Primeiro deixámos de ter
idade para ficar pelo chão
da casa a fazer corridas
com caricas.
Depois crescemos e nesse
movimento cada um
foi para o seu lado,

convencido de levar
consigo, mais que
a razão, a própria vida.
Finalmente, quando tudo
era já passado, foram-se
também os nossos heróis.
Esse tempo nunca existiu.

2.4.13

Parentes na lama


Ensinaram-me o medo e o silêncio
para que tudo fosse conveniência
e não aventura desmedida.

Fizeram-me enfrentar a desilusão
repetidamente a cada idade
ora empurrando ora puxando-me
de onde queria estar.

No final, ao verem reerguer-me das cinzas
disseram que tudo fora por amor,
como se estivessem felizes
com a sua participação no resultado.

A bem da minha sanidade, calei-me,
deixei-me estar quieto e arrumado,
não fosse desrespeitar a sua memória.

1.4.13

Tempo heroico


Chamar heroico ao tempo,
não ao que passa mas ao que fica,
à chuva, ao sol e ao vento,
menos do que quem se admira,
mas por paixão se encara,
frente a frente,
com os da natureza poderosos elementos.

Chamar heroico ao tempo,
simples jogo de palavras
que se vai perdendo por traduções,
constância de quem se quer vivo
e, passo a passo, se aproxima
do que dentro do coração
o faz sentir-se humano.

De invocar Ruy Belo passou o metro,
desmedida sensação de quem
não se fez português por encomenda,
montado nos livros das bibliotecas.

Agora arruma-se em bens mais antigos
e por ofício, mais que por desejo,
burila lentamente cada letra
sem ideia da palavra que sustenta.

Chamar heroico ao tempo,
gritar pelas ruas vivas sem,
ao menos, saber de antemão
a saciedade crescente nos pulmões,
tão cruas fossem as necessidades
de quem assim se encontra,
num repente, ausente de todas as certezas.

Chamar heroico ao tempo,
pois não se acanhem,
chame-se às coisas o que elas bem merecerem
e siga-se em direção à frente,
a guerra não se faz na ausência,
nem os corpos tremem por apartado,
assim se escreve lei neste lugar.

Variação sobre tema de Alexandre Desplat

22.3.13

Primavera


Desvendas o segredo
bem guardado
do cheiro da tua pele.
Eu refaço o limite
dos teus seios,
colho os frutos
que nascem em teu corpo.
Planto em ti
a semente do porvir
e tu sorris,
aninhada num abraço,
inaugurando a primavera.

21.3.13

Lume


Lume lume
a camisa aberta
os dedos os lábios
os olhos fechados.
Lume fogo
a camisa encarnada
revelando bem mais
que tudo
o que mostra.

20.3.13

De mármore


É de mármore
quente ao toque
a pele onde adormeço.

É de mármore
o olhar que me enternece
sombra sólida da dor.

É de mármore
a rigidez dos sentidos
resistindo bravamente ao escopro.

19.3.13

18.3.13

A tua mão fechada


A tua mão fechada
sobre meu peito encontro.
Peço-te, não a abras,
por medo que assim se perca
meu coração

17.3.13

A Aposta

O que se conhecia de Madalena de Castro Campos, que tem vindo a publicar no blogue les cahiers de la mariée, já dava o tom daquilo que se encontra n’ O Fardo do Homem Branco, o seu primeiro livro, publicado pela açoriana Companhia das Ilhas. 

Ler na Revista Literária Sítio

16.3.13

A Lua


A lua reflete na água do poço.
Sedento, bebo-a
como se tomasse a lua
nos meus lábios.
A lua reflete na água do poço.
Não passa a sede
nem deixa o braço
de puxar o balde.
A lua reflete na água do poço.
E eu bebo a água
e eu sonho a lua
meus lábios húmidos.
A lua reflete na água do poço.

15.3.13

A chuva


Há quanto tempo não chovia
secara já o ribeiro
esquecera-se também crescendo
as ervas à sua beira.

Há quanto tempo não chovia
nem o pássaro cantava
fechado na gaiola da varanda
a vizinha ao seu lado chorando.

Foi já há tempo demais
que água escorrera pela vila
e agora as marcas dos sapatos
pouco perduram na estrada. 

14.3.13

O Leite


O copo de leite, cheio,
sobre a mesa todas as manhãs
ainda antes do sol nascer.

O copo de leite, morno,
querendo prometer a claridade
que nenhum pensamento alcança.

O copo de leite, de um trago,
entornado entre os lábios
arrebatando frágeis auroras.

13.3.13

A árvore


Um homem, pendurado na árvore,
inspira com todo o vagar e cuidado,
sabendo esta a última vez.

Quebrou-se o ramo, a vida inteira,
sobra-lhe tempo, nada o apressa,
para aprender a respirar. 

12.3.13

O meu país


Ontem viajei até ao Concelho de Palmela, no Distrito de Setúbal, a convite do Agrupamento de Escolas do Poceirão e Marateca, para visitar várias escolas e falar sobre o “Afonso e o Livro”. Passei o dia a conversar com crianças que frequentam entre o 2º e o 4º ano do Ensino Básico, provavelmente das idades em que a capacidade de encantamento e a sinceridade na apreciação estão mais à flor da pele. Também conheci as suas professoras e professores, e desta forma fiquei a saber algo mais sobre os problemas que afetam os mais pequenos que por ali andam.


É bom lembrar que estamos a falar de lugares que estão a cinquenta ou sessenta quilómetros de Lisboa. E, por ali, há crianças que chegam muitas vezes à escola com fome. Crianças com pais adolescentes que, por sua vez, serão pais e mães bastante jovens também. Crianças tantas vezes vítimas das ausências de cuidados familiares. Crianças que estando a dez quilómetros de uma praia, nunca viram o mar. Crianças cuja única vez que foram a Lisboa foi no passeio da escola. Crianças para quem o fim-de-semana é brincar no quintal com o cão e ir ao Intermarché. Perante isto, a resposta que o Estado dá, é exigir mais resultados (leia-se, melhores notas) para que se mantenham apoios sociais mínimos, como um psicólogo na escola ou o alargamento de horários para aulas de apoio. Esquecendo, constantemente, de que por muito criativos que os professores sejam, os orçamentos mínimos não permitem que os computadores avariados, os projetores sem cabos, a energia para os aquecedores, os pavilhões sem paredes e as paredes com humidade, não se recuperam apenas com a vontade de sonhar.

No meu país, digam o que disserem na televisão, nos jornais, nas conferências de bem pensantes, continua a ser um milagre uma criança conquistar algo na vida. Como é óbvio, teremos sempre uns quantos que, felizmente, poderão estudar, formar-se, empregar-se, empreender-se e constituir-se como caso de sucesso para que o 10 de junho (feriado ou não) possa contar com os seus medalhados. Mas, no meu país, continuamos como sempre a deixar trás da cerca todos aqueles a quem não sabemos como ajudar. Não sabemos como proporcionar o planeamento familiar, nem os cuidados básicos de educação de uma criança. Não sabemos como ajudar famílias, nem como encaminhar as pessoas conforme aos seus gostos e às suas possibilidades. E, por mais chocante que pareça, atrás da cerca pode ser mesmo ali debaixo da A2, a estrada para onde tantas vezes passamos com destino ao melhor que Portugal tem (Sol &Praia à beira-mar plantados…).

Por isso ontem, quando visitei as escolas daquele agrupamento, e vi olhos que brilham, felizes, perante um livro e uma história, perante a possibilidade de se perguntar qualquer coisa a um crescido, ainda por cima um escritor, que está mesmo ali à mão de semear, percebi que apesar de tudo, estas crianças não sabem ainda de todas as limitações que terão no seu futuro (mesmo que percebam as do presente, ou não me dissesse um rapaz, da sabedoria dos seus dez anos, “sabe que a crise não me permite comprar…”). E perante isto, pedi-lhes aquilo que se pode pedir, seja a uma criança ou a um adulto: por favor, continuem a acreditar.

11.3.13

O Mel


O zumbido da abelha
abre como um fecho
no meio da floresta.

Não há nada a temer
apenas o paraíso
prometido pelo mel.

8.3.13

O Velho


Nada mais lhe restava
do que chegar a velho.
E depois de ali estar
sobrava o nada. 

7.3.13

A falha


Muitos antes de nós
sonharam já o mesmo;
alguns homens e mulheres,
alguns animais.

Mas o que nos pesa nas costas
não é o peso de terem falhado;
é a insustentável solidão
de o falharmos à nossa maneira. 

6.3.13

Liberdade


Por todo o lado havia gente
E em cada um o seu silêncio.
Raramente, pela avenida,
Alguém mais bravo que gritava.

Por todo o lado havia gente,
Uma imensa dor partilhada.
Descendo como quem se entrega
Cantando como quem se cala. 

5.3.13

O eco


Muitos passos depois
já não éramos nós
era o eco
tomando conta do ar
ou dos sonhos
ou da vida.

Não contava a distância.
Havia o aceno
havia os teus olhos
era o eco
um coração cantante
qualquer coisa que vibra.

4.3.13

Manifestação


Fomos à manifestação
para recuperar
a cidade.
Ocupámos o meio das ruas
Caminhámos entre prédios
abandonados
e tentámos ternamente
o sorriso perante todos
os que encontrámos.

Fomos à manifestação
para recuperar
a cidade.
Mas hoje regressámos
cada qual ao seu lugar.
Fora das ruas
dentro dos prédios
abandonados de nós
e dos sorrisos.

Mas, sim, tentámos.
Nós tentámos. 

1.3.13

António de Camões


Vai incerto e não seguro
as mãos nos bolsos
sem dar por nada.

Sobe que sobe
sobe a calçada.

28.2.13

Um dia


Um dia vou dizer-te terna
como a flor sobrevivente
no meio da gusa

e tu vais sorrir de inveja
passeando teus dedos velhos
pela bainha da tua blusa.


Variação Op.23, Nuno Côrte-Real 

27.2.13

Coimbra


Redondo como o vento
fazia luz dos labirintos
deixava tudo por dizer
seu disfarce era o medo
ou o que viesse a acontecer.

Imaturo como o tempo
seguia quieto e inseguro
feito de não se encontrar
sua esperança era nada
ou o que pudesse evitar.


Variação sobre Op.29, Nuno Côrte-Real

26.2.13

Oiço ao longe


Oiço ao longe ecoando
os díspares frutos da cidade.

E o que não for um canto
talvez seja tempestade.


Variação sobre Op.42, Nuno Côrte-Real

25.2.13

Onde pareço


Onde pareço abismo
também procuro
enseada
e deixo na areia
em passos expressa
a caminhada.

Onda do mar,
como me poderás salvar?



Variação sobre 5 pequenas músicas de mar, Nuno Côrte-Real

22.2.13

Transmontana - V


Deitam-se, então, as árvores
sobre a terra
transmontana.
Demoram-se os caminhos
na solidão dos montes.
Homens e mulheres
dormindo,
horizontes esquecidos.
Como que apaziguados
vão nos sonhos
dirimindo
as lutas
que chegarão
na alvorada.

21.2.13

Transmontana - IV


A pedra, ainda a pedra,
tantos dias cruzada,
carregada,
quantas costas doridas
e calejadas.
A pedra, ainda a pedra,
é só o que resta,
e vai ficando,
quando a noite chega,
o sino para,
todos se calam.
De pedra a ponte,
de pedra o monte.
de pedra os homens
que resistem.
De pedra a memória
de pedra a fuga.
de pedra as camas
daqueles que já não dormem.

20.2.13

Transmontana - III


Baixou o Rio Malara,
é maré baixa
em toda a aldeia.
Baixou o rio
e de pouco servirá
agora a ponte,
se os carros largassem,
também,
este país.
Sob a água
ficaram agora
algumas pedras,
o caminho
para a outra margem
ali ao lado.
As mulheres compõem os lenços,
os homens coçam a cabeça.

19.2.13

Transmontana - II


Toca o sino
todas as meias horas
pela mão de Dona Inácia.
Toca o sino,
limpa-se o altar,
segue Deus satisfeito
nesta terra
onde as casas
contam histórias
sem voz.
Toca o sino
e a vida leva-se,
carregando feno
para os animais,
olhando o burro
que adormece,
chamando o preguiçoso
cão que se oferece
ao visitante.

18.2.13

Transmontana - I


Deitam-se as árvores
sobre a terra
transmontana,
ao fim da tarde,
já a sopa está ao lume.
As velhas rezam
e renovam as flores,
logo se escapando,
encostadas às paredes
do largo da Igreja.
Deitam-se as árvores
e então pedras
crescem e engolem
toda a plantação.
O tempo é lento,
o lugar silencioso,
ao fim da tarde,
quando regressam
os homens.