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24.2.11

Digestivo 4

Não era para aqui que eu vinha, foi aqui que eu cheguei. O herói que eu quis ser nada tinha deste herói que hoje sou.

Não me faço das noites, das dores, dos pesos, do sangue, dos que nada mais têm para dar.
Faço-me dos dias, dos remédios, da leveza, da limpeza, dos que querem, sempre, dar algo mais.

Não era para aqui que eu vinha, foi aqui que eu cheguei. Não era bem um homem que eu queria ser, mas é um homem aquilo que sou.

23.2.11

Digestivo 3

Rapidamente e sem anestesia, disse ele. Tremi. Mas em nenhuma das poucas coisas que me passaram pela cabeça entre esta frase e o restante discurso estava aquilo que se seguiu. Nunca, mas mesmo nunca, esperamos que nos anunciem uma sentença de morte. Daquelas disfarçadas de esperança, mas de morte. Daquelas que podem demorar anos e anos, mas de morte.

Podia escolher ficar do lado da força e da alegria. Mas eu sempre fui daqueles que contemplaram a morte da varanda, como quem vê passar, silencioso e quieto, a procissão. Não sou feito da matéria que enfrenta esse touro pelos cornos. Resguardo-me na expectativa e nas palavras. Sem anestesia. 

22.2.11

Digestivo 2

Sempre chega um dia onde percebes o que é um círculo. Um círculo é onde os componentes se respeitam. Onde as partes se conhecem. Onde um olhar chega para perceber o que está bem, o que está mal. Um círculo é onde há lugar para crescerem vidas. A tua vida. O círculo não é apenas o que está próximo. É o que está dentro. E até o que está dentro pode estar em muitos lugares.

Sempre chega um dia onde percebes que o teu círculo é muito pequeno. E depois um outro dia, onde encaras que o teu círculo é ainda mais mínimo. Inspiras forte, piscas os olhos. Custa-te um pouco. Mas segues em frente.

21.2.11

Digestivo 1

Pessoas só com um lado. Sorrindo e enganando, só com um lado. Sujando, gozando e cuspindo nos outros, só com um lado. Inventando a sua própria vida como lhes convém, só com um lado. Encontrando no corpo dos outros uma escada, só com um lado. Exibindo a sua riqueza e a sua estupidez, só com um lado.

Um lado como uma parede de esferovite, frágil, inconstante, sem qualquer valor. Um lado como uma peça de plástico barato. Um lado. A esconder a sua própria fealdade. A sua desrazão de ser. Pessoas.