16.1.15

A banda

Como em mil novecentos e setenta e nove
eles tocam guitarras
eles fumam cigarros
eles sonham voar
eles fazem canções
eles enrolam entre dedos
incertos mundos por encontrar;

Eu já vesti o meu pijama,
não me quero chatear.

15.1.15

À tua luz

Não gosto de fazer promessas
porque sei bem não as cumprir.

Faço do frio o meu refúgio
se não consigo adormecer.

Não sei muito melhor que isto
mesmo quando és tu a pedir.

Mas continuo à tua luz
a fazer por merecer.

14.1.15

Mapa

Dizer melhor,
não sei,
pedir desculpa,
não peço.
Fazer de novo,
quem sabe.
Voltar atrás,
não quero.

13.1.15

Coisa

Tens os olhos secos
mas a maquilhagem escorre
pela tua face abaixo,
somos sempre aquilo
que deixamos
por terminar.

12.1.15

Dois mil e quinze

Onde os círculos se completam
e as razões se encontram;
pouco importa quantas palavras
te restem ainda no saco de viagem -

acabas de regressar a casa.

2.1.15

Promessa

Ao teu lado, sereno,
que mal me poderá acontecer?
Tu estendes os braços,
apontas a arma,
de olhos fechados
sempre a acertar.
Ao teu lado, sereno,
que mal me poderá acontecer?

30.12.14

Falhar

Mesmo não tendo
nenhum furo
o pneu perde,
ainda assim, ar.

Mais um ano que acaba.
Mais um ano a falhar.

29.12.14

Estrangeiro

Certas coisas sem perdão
ficaram esquecidas na casa.
As manhãs enquadradas nas
fotografias sobre a cómoda,
os suspiros calorosos
na marquise virada ao jardim,
as luzes apagadas numa cama
onde nunca dormimos.

Não esperaria, assim,
o telefonema, as boas festas,
a plasticidade arrastada
do reencontro.

Por isso se cavam sepulturas no estrangeiro
para aqueles que morreram na guerra

24.12.14

Natal (2014)

De ano a ano lembram-se
pedir verso apropriado
ao aniversário do menino.

O poeta não se cansa
a repetir o pouco gosto
em escrever de encomenda.

Houve no entanto ocasião
em que antes do bacalhau
fez-se poema com sentimento.

Por isso, se de novo alguém
nisso de pedir poema se mete

o poeta manda procurar na internet.


23.12.14

vinte e três

A cada vinte e três partes
e meu passo quebra-se
desorientado
até ao dia que regressas
para colar cada peça
para ficares a meu lado.

22.12.14

Malta

Eram demasiados desenhos
para perceber um mapa
da literatura moderna
ameaçada de eterna
nos olhos tapados da malta.

Eram só riscos em cadernos
sem estradas secundárias
para o canone da escrita
muito menos da maldita
aos olhos tapados da malta.

19.12.14

Memória

Não manda versos
o poeta
fica calado, está à espera

de um convite
que não chega
nem mensagem, nem alerta.

Não manda versos
o poeta
morreu na memória dos outros.

18.12.14

Apagado

Escrevi e apaguei
umas dez vezes
o poema

era uma voz do passado
que desconfio também
futura

assustei-me como o gato
mas não corri nenhuma
rua

escrevi e apaguei
e ainda o poema
perdura.