13.1.17

Ator secundário

Tu perdes todos de quem gostas, ao ritmo das rodas-dentadas da carruagem, num comboio com destino para lugar algum. Era ele o homem perdido que caminhava em busca de uma coisa que ninguém por perto compreendia. Talvez por isso parecesse sempre tão calado, tão sentido, tão ausente. O seu mundo era um outro, onde vestia a casaca de uma personagem e o ser estranho era uma espécie de cartão-de-visita para o mundo. Tu perdes todos de quem gostas, cantavam-lhe ao ouvido, como há certas músicas que não conseguimos tirar de dentro da cabeça, como há memórias de que não nos sabemos proteger. O comboio seguia, num homem de face imperturbável, pronto a ser herói da sua causa: ator secundário da história do mundo.

12.1.17

No tempo das fotografias

Sentia-se puxado para dentro das fotografias e, consoante a época, cada uma das imagens gerava em si sensações distintas. As fotos do início do século provocavam-lhe uma sensação de miséria, como se a fome lhe crescesse dos olhos. Pelos anos cinquenta, sentia já alguma capacidade de esperança, mesmo que toda a esperança o faça chorar. Nas fotos mais recentes, dos anos setenta, a sua empatia com aquelas ruas amplas e limpas permitiam-lhe respirar. Ainda assim, uma sensação qualquer de fim-de-semana isolado, de dia de visita ao belo construído, não uma vivência diária. Porque o dia-a-dia seria, com certeza, uma prisão. Uma prisão de onde lutaria para sair, apenas para se sentir mais preso a seguir. A fuga, no tempo das fotografias, não seria possível.

12.12.16

Brevemente...

O volume Famosas Últimas Palavras junta três livros que refazem o caminho poético de Luís Filipe Cristóvão. A cada um deles, um tema que serve apenas como despiste de uma leitura de pré-conceitos. Na “Fala do Artesão” são os cheiros da terra, entre o rural e o marítimo, que nos invadem a boca. Boca que explode em “Fronteira”, numa dimensão mais marcadamente política dos seus escritos. Tudo se encerra com “Casas Funerárias”, um pequeno livro de morte, onde o título do conjunto acabará por soar a inevitável ironia de quem sabe não vir a ser nem famoso, nem escutado, nem morto.

Brevemente, na Editora Jaguatirica


30.9.16

MCMLXXIX

Como a luz, num caixão, escondida para sempre, 
ou as palavras engolidas com um copo de água, 
depois das refeições, até que o silêncio se instale
por dentro e não saibas sequer como falar, no dia
em que finalmente entendes o que tens para dizer. 

22.8.16

Porta

Uma porta é uma porta, dizes tu quase calado, enquanto
tentas perceber se há barulho do outro lado, uma voz ou
um movimento, qualquer coisa que denuncie a existência
de uma razão de ser para a porta, aquela porta, fechada

à tua frente. Porque se bem te lembras uma porta é uma
porta, para teres a certeza procuras no dicionário e lês, 
entrar, sair, acesso, admissão, solução, expediente, tudo
coisas para passar, onde há uma porta há o deste lado e

o do outro. Mas tentas entender e para esta porta não há
sinal de nada. Já perguntaste até ao médico se não será
um problema do ouvido, mas não. Tudo está certo com a

audição, com certeza será questão de entendimento, eras
tu e a bata branca e um sorriso que se prepara para buscar
a razão para, de entre todas as portas, a tua, estar fechada.

19.8.16

Vintes de agosto

Aos vintes de agosto chovia em Santa Cruz e
nem sequer havia quem fosse connosco andar
de bicicleta ou jogar à bola na areia, como nos
outros dias de verão em que ainda não eram

vintes, nem talvez agosto, mas também chovia
em Santa Cruz. Eu olhava o vazio pela janela
do quarto e voltava a deitar-me no chão, umas
caricas entre os dedos, a inventar jogos que

ficavam registados em cadernos com os nomes
dos jogadores, os resultados, uma passagem do
tempo em versão acelerada que nem os vintes

nem agosto conseguiam parar. Uns dias depois,
voltaria ao calor e aos amigos da escola, mas o
olhar ficaria para sempre preso no vazio da janela.

9.8.16

35 graus em Santa Cruz

Como um gelado que se derrete sobre a
mesa da esplanada na tarde de verão onde
os olhos se fecham e as vozes que se ouvem
são apenas uma repetição de outras tantas 

férias que já só têm lugar na memória. Lá mais
para cima, um casal de poetas esconde-se à
sombra, comendo pequenas folhas de alface
e seguindo, à risca, as indicações do médico

que aconselhou o consumo moderado de álcool
e açúcar. Caipirinhas nunca mais, confessa o
empregado de mesa, enquanto quatro senhoras

sorriem e pensam como seria bom voltar a ter
dezoito anos para poder olhar aquele jovem
sem culpa. Como um gelado que se derrete. 

8.8.16

Português sem filtro

Com um martelo quebra as montras onde vê
a sua própria imagem refletida, incapaz de fazer
as pazes com os seus próprios falhanços. Exige
dos outros aquilo que não consegue para si próprio, 

ensaia o discurso de pai inserindo sentenças nas 
cabeças calvas dos que se dignam a ouvi-lo. Fala, 
a maior parte do tempo, sozinho, sem ninguém que 
se determine a cumprir-lhe as indicações ou a beber-lhe 

os conselhos. Não entendeu ainda que com martelos 
não se caçam borboletas, nem se escrevem poemas 
em folhas brancas de computador. Não entendeu, 

sequer, que o lá fora dos velhos clássicos é ainda 
mais seco e inócuo do que o seu próprio comércio, 
apenas filtrado pelo tempo - o que tudo cura.

Mínimos Olímpicos

Não há como evitar a confusão, nem como dormir
sossegado na aldeia olímpica em que se transformou
esta parte da cidade. Não há já braçadas que nos
livrem de uma sorte que nos empurra a competir

com os nossos próprios fantasmas, não há corrente
de bicicleta que não salte sobre o empedrado onde
antigamente desenhávamos apenas o caminho
para as férias. Não há como evitar línguas obscuras,

nem como perceber todas as mensagens, não nos
prepararam para que os jogos fossem tão mais
exigentes para nós próprios do que para aquilo

que se vai repetindo em slow motion na televisão.
Não há como evitar a confusão, pensamos nós,
falhando os mínimos determinados pela federação.

O construtor

Ele já sabe o que é estar às portas da
morte sem que ninguém o deixe entrar,
tal como sabe como se escreve mil vezes
o mesmo poema até que tudo lhe pareça

muito mais dor do que a própria dor que sente.
Ele já correu pelas escadarias da mente as
maratonas do desejo e entende perfeitamente
que do silêncio só pode nascer incompreensão

ou outra qualquer coisa que nos impeça de crescer.
Gostar sozinho parece bonito, como um quadro
grande na parede de um museu, mas que nada

diz ao artista que não seja do passado das coisas
como elas podem ser vividas - de mãos e braços
abertos para a complexa construção do amor.

2.8.16

O caminho

Se estás sempre a aprender, porque nunca
aprendes, pensas tu com o peito inquieto e
a boca seca, a garganta que dói, o sol já te
queima por dentro e ainda nem começou bem

o verão. Se o mundo se constrói pela palavra, 
porque estão estas sempre a derrubar-te, seja
do poiso incerto onde te ergues, seja do chão 
pantanoso que pisas, a cada dia onde ainda te

procuras sem nunca, nunca, te encontrares. Se
o resto do caminho vai ser feito apenas para que 
morras devagar, as flores deixa-as ficar quietas no 

seu canteiro, não as arranques nem guardes num 
vaso, as cerimónias não nos servem de nada, se o 
resto do caminho vai ser só o que poderia ter sido.

30.7.16

O fotógrafo aprendiz

Para o Afonso Faustino

Preferir a gradação da noite, onde os contrastes 
entre negro e branco se evidenciam naturalmente, 
enquanto se aprende a desfocar os cabelos longos
daquela que corre sem parar pelo jardim, agora

invadido por uns quantos acordes eletrónicos e 
luzes metálicas, a sublinhar azuis ou vermelhos
apenas evidentes ao olhar do fotógrafo aprendiz.
Assim se inicia a história de um mundo, todos os 

dias uma vez mais, quando alguém tem catorze 
anos e todas as certezas que o tempo nos pode 
dar, sem procurar ainda, fora da lente, um outro 

matiz, um outro olhar, que se esconde em código 
entre a multidão, mas que acabará descoberto 
quando, sob lupa, se revelar o trabalho no computador.

29.7.16

Obituário

Ali naquela estrada jaz o cadáver do encontro que 
não aconteceu, enquanto os carros continuam a descer
pelo alcatrão, a fazer pisca, a olhar quem vem lá, com 
destinos incertos e tantas vezes inseguros, mas nenhuma

preocupação. Logo ali, naquela janela que não faço ideia
qual seja, escondes-te tu e os teus óculos escuros, usados
para não ver o mundo que te saúda ou os poemas que 
nascem das rotundas mal plantadas por aí. Alguma vez 

te disseram que a arte nasce das coisas que não acontecem 
na vida real? Alguma vez te sorriram sem que nada quisessem 
de ti? Porque o mundo não é assim tão mau quando pomos 

finalmente as mãos na terra para deixar que o medo 
não tenha mais poder sobre nós ou as nossas vontades. 
Ali naquela estrada jaz o adeus ao que nunca aconteceu. 

Revolução

E se um dia abrires, finalmente, os olhos para
a revolução, vais saber que as ruas são livres
e os corpos se despem por inteiro entre as frases
que ficam por dizer nos lábios que não se beijam.

Porque se um dia acordares e conquistares o
teu direito a seres quem tu bem quiseres, é certo,
não te faltará o tempo nem o modo para ergueres
os braços e as mãos agarrando o mundo inteiro.

Pode ser de noite e no escuro nada vês ou pode
ser de tarde com o sol alto a cegar-te ou pode ser
de manhã com o espesso nevoeiro a encobrir-te.
Pode ser tudo, nada te pára, porque tu és revolução.

17.7.16

Chuva quente

Chegou a chover esta manhã, enquanto
os teus ouvidos ainda estalavam magoados
pelos decibéis exagerados da noite passada.
Com uma faca pouco afiada, eu tentava limpar

a pele até ao ponto de o sangue emergir por
entre os poros, irritado ao ponto de escorrer
e só depois transmitir aquela dor, insuportável
e fina, que me tolhia qualquer desejo de 

movimento. Chegou a chover, dizia, mas não sei 
se as minhas palavras chegavam até ti ou 
se a tarde inteira é apenas uma construção 

frágil que se vai desmoronando com o subir
do sol até ao topo da montanha para depois 
descer do lado onde a nossa vista não alcança. 

Névoa

Por aqueles dias escrever não era uma
inspiração, tal como a névoa caía feito
chuva sobre as cabeças dos veraneantes
confusos com a situação meteorológica

habitual naquele lugar. Também todas as
promessas de que aquele seria o último 
livro eram consideradas vãs, pois esta 
sede não se oferece a ciências nem a

crenças, esquece-se quando saciada para
regressar, brutal, quando seco transparece
o coração. Os pés sujos e negros pesavam

sobre uns chinelos baratos, marcas de pedras
assentando sobre a planta, território neutro
de uma luta que insistes em não compreender. 

14.7.16

Tudo dói

Tudo dói, Carolina, diz a avó à pequenina
e o último trago do café amargo encrava-se, 
vai comigo escadas rolantes abaixo, tropeça
em gente que passa, enrolando-se em mim no

caminho até ao carro. Tudo dói, diz a senhora, 
como quem o diz a toda a hora, a pequenina
encolhe os ombros, fica calada, tenta a custo
arrancar o papel do gelado que parecia ser

via verde para qualquer sofrimento. Tudo dói, 
a pequena comerá o gelado, eu acabo por me 
fazer à estrada e até podia dizer que a vida

segue o seu percurso, mas não segue, porque
ainda vai haver uma avó desencantada pronta
a prender as sinceras emoções da Carolina.