10.10.14

Olá

O olá desfez-se entre os lábios, como uma folha que desaparece com o vento. Mas ele ainda estava ali. Ficou sem mais nada o que dizer, perante o silêncio dela tão semelhante ao dele como uma face que cora perante o vazio. Na rua da incompreensão mútua, vão amar-se silenciosamente para sempre.

9.10.14

Cara

Seleciono caras no meio da multidão, podia culpar outra coisa, culpo apenas a miopia, o ar condicionado. Seleciono caras, simpatias, pronto a inventar comunhões que nunca virão a existir. Como explicar a um olhar uma teoria poética que pode nunca vir a terminar? Cansam-me as erudições e só sei viver nelas.

8.10.14

Regresso

Voltava a andar pelo passeio como se ninguém o visse. É bom voltar a estar no mundo onde te ignoram. Só te pesam os pés porque as horas, agora, se fazem de minutos que entendes melhor. Ninguém pensou que ia ser diferente. Estava-te a contar o quê?

7.10.14

Lírico

Chamou-me lírico como quem diz boa tarde e nas paredes da casa escorria a humidade do inverno que chegou quente. O corpo suado já falava o suficiente da minha pessoa, dizer mais para quê. Não faço perguntas, não quero respostas. Chamou-me lírico. Segui viagem.

18.9.14

Estado Líquido - II

Nem tudo me sai, nem tudo o que me sai é o que eu queria dizer. Esforço-me para não chorar enquanto te conto a ínfima parte daquilo que sinto. Quando me abraço a ti, sei que posso adormecer sossegado.

17.9.14

Estado Líquido

Na pele, a chuva faz-se suor a cada passo. O corpo grita por dentro, puxando-me as feições, fazendo-me soltar gemidos. As caras que passam por mim não me dizem nada. A dor torna-nos sós, isolados do mundo. A lava não escorre pela rua. O vulcão, em erupção, somos nós.

16.9.14

Menos um

Há menos um à mesa, esta noite. Aliás, há já muito tempo que a mesa se faz com menos um. Passaram poucos anos e, se a memória não mente, a presença de todos era já uma encenação do que estava para vir. Uns partiram mais depressa, sem se anunciar, até porque estavam perto demais, mesmo na ausência, para despedidas. Outros levaram-nos abraços, levaram-nos sorrisos. Ficamos nós, menos um, a ajeitar o centro de mesa para simular a ocupação do espaço.

15.9.14

Fragmentos

Aprendo a ver a vida em fragmentos, enquanto me despeço de mais um pedaço de mim. São as pessoas que partem e os hábitos que se mudam. No fundo, estamos sempre a mudar, sempre a mudar, num ritmo que nos foge do controlo. Aprender a viver com isso, um pé aqui, outro acolá, é o respirar dos sobreviventes.

12.9.14

Andar

Ando lentamente pela rua, como se pensasse os passos, como se engolisse em seco. Ando direito e vagaroso, como se inventasse desculpas para me demorar. Ando assim. Cumprimento, quase em silêncio, as caras conhecidas que passam por mim.

11.9.14

Carreiros

Podia-se escrever um poemas apenas com os nomes que deram aos carreiros na orla de Peniche. Podia-se inventar uma língua. Podia-se, só, ficar a ouvir o mar.

10.9.14

Pescador

O pescador aproveita o verão para ganhar uns trocos a trabalhar no restaurante. O dono da casa, familiar afastado, recebe-o com a compreensão dos afetos. Os empregados mais novos passam-lhe a perna sempre que podem, ficam-lhe com as gorjetas, atravessam-se na sua frente para ficar com as melhores mesas. Mas o pescador mantém-se firme. Simpático e atencioso, como só a morte que espreita - inverno adentro - pode ensinar.

9.9.14

Abóboras

Apetecia-nos abóbora e pela estrada víamos os campos cheios delas. Abóboras, por ali, à mão de semear. Apetecia-nos abóbora e teria sido fácil parar um carro e levar uma. Roubar, como se diz em bom português. Mas fazê-lo seria provocar uma falta de confiança ao produtor de abóboras, que triste e enraivecido por ser roubado, talvez as deixasse de plantar. E quando nos apetecesse abóboras, não teríamos onde as comprar.

8.9.14

Serviços

Na clínica, a analista retira sangue à velocidade de dois pacientes para cada um do seu colega na sala ao lado. Chama o nome na sala de espera, quase não o deixa sentar-se, só pergunta o essencial. A seringa penetra a pele sem um ai, o sangue é retirado, a cena repete-se. Não sei como reage o outro analista. Levou para a sua sala um velho com ar entretido que saiu de lá a dizer-lhe "cada um é como qual" e agradeceu-lhe, alto e bom som, o serviço prestado.

6.9.14

Reconciliação

Ao ler "La fête de l'insignifiance", o último livro de Milan Kundera, sinto estar perante um velho boxeur que mantém todos os golpes e efeitos no seu jogo, mas a quem a idade retira a imprevisibilidade. No entanto, ao pensar nisto, percebo que da mesma forma que o velho boxeur, também o meu olhar envelheceu.

5.9.14

Contra-relógio

Muitas vezes as coisas surgem-nos em contra-relógio e o que nos atinge não é tanto o termos de cumprir determinada tarefa o mais rápido possível, o que nos fere é que venha alguém atrás de nós, sentado no carro, a indicar-nos o caminho.

4.9.14

Aviso

Para que fique menos por dizer nas conversas que não temos, ofereço-te um diário bruto, onde me perco e invento, um dia de cada vez. Talvez pudesse ter começado por este aviso, mas, na verdade, faltou-me o tempo para ser mais certo.

3.9.14

Óculos Escuros

Queria parecer-te mais inteligente. Talvez que a minha voz se alinhavasse melhor com os barulhos da conversa da mesa ao lado. Queria também que não percebesses como caminho torto e pesado. Talvez se me sentasse antes mesmo que tu chegasses. Queria, finalmente, que pudesses ver nos meus olhos como entendia a tua face ruborescendo, numa leve ânsia de me beijar. Mas não tirei os óculos escuros.