10.4.14

O Jogo (1)

O jogo é uma bolha onde entras à procura uma nova forma de respirar. Tudo o que nele acontece vai deixando em ti um rasto que demoras a explicar. Pensas que o cansaço te vai deixar dormir, mas o sono é apenas um sonho onde o jogo não acaba. Pela tua cabeça tudo vai ganhando forma de uma fotografia antiga, onde os pormenores são claros só para quem lá esteve, naquele passado cada vez mais distante. E enquanto enfrentas o ar, agora que mais uma bolha rebentou, sabes que aprendeste o caminho para o jogo que vai começar.

31.12.13

Fim de ano

Enquanto a minha escrita se encaminha para a sua morte, eu sigo para outra vida.

30.12.13

Anónimo

Na cena do acidente ficou um pequeno vestígio de sangue que nenhum teste conseguiu identificar. Poucos acreditam, no entanto, que o anónimo seja um sobrevivente.

27.12.13

Cão

Os olhos do cão seguem-me pela sala, num silêncio feito apenas da sua respiração cada vez mais ansiosa. Mais um dia que passa, igual. E o cão que não ladra.

26.12.13

Árvores

Como as árvores que, ao longe, passeiam vagarosas pela tarde, ainda que tenham os pés presos no chão.

25.12.13

Natal

Não escreverás no dia de natal. Para que a frase não tenha o óleo dos fritos, nem um papel de presente amarrotado se intrometa no ritmo dos teus desejos.

24.12.13

Festas

O mundo não foi feito para se desejar boas festas. Que as festas sejam boas é apenas o sintoma de que as coisas correm como deveriam correr.

23.12.13

Falta

O Doutor não queria deixar a filha à espera na porta do Colégio. Por alguma razão, parecia-lhe propício que ela não experimentasse a ansiedade da falta momentânea.

20.12.13

Vento

Ainda procura em tudo a poesia do mundo. E a cada passo ela foge-lhe, como se o vento não estivesse interessado em que homens e sonhos se encontrassem.

19.12.13

Dor

Também ele chorou e tremeu, pensando que o amor só seria justificado se passasse pelo sofrimento. Ainda não sabia que, quando dói, não é amor.