2.7.15

Tabacaria Atenas

Não sou grego.
Nunca serei grego.
Não posso querer ser grego.


À parte isso, tenho em mim todas as dores do mundo. 

1.7.15

Eurozona

Agora que vejo nos mercados
lutar-se abertamente
pelo poder

percebo melhor a Dona Micas
chorando ao retirarem-lhe 
a banca

onde sempre vendeu 

as suas cebolas. 

29.6.15

Difteria

Nunca estaremos longe
ao ponto de a natureza
humana

não nos poder apanhar.

24.6.15

Poética

O meu poema é sexta-feira

desejado como caminho
onde se passa a correr

para chegar ao outro lado

onde não estou eu,
nem o meu poema.

22.6.15

Solstício

Repousando a voz
que rasga céus inteiros

como tempestades
surpreendendo
crianças na praia

Janita Salomé contempla
um trio de sardinhas assando
junto às altas paredes
do Forte de Cacela Velha.


19.6.15

Português suave

Estás fora de jogo,
sempre fora de jogo,
porque te armaste em forte
quando queriam tipos frágeis,
porque te armas em suave
quando querem gajas rudes.

17.6.15

Lenhador

Não precisas de ser lenhador
para comprar um machado,
para afiares uma lâmina
e procurar no meio do mato
uma árvore genealógica,
cortá-la em dois ou três golpes.
Não precisas de ser lenhador
basta querer e fazer.

15.6.15

Feira cabisbaixa

Qualquer coisa de ti se perdeu
enquanto continuas em busca
de te encontrar

É por isso que fechas os olhos
quando na rua te cruzas com quem
não queres falar

É por isso que entras na feira
sem teres a certeza de ser esse
o teu lugar

11.6.15

Menos é menos

Há quem arrisque tudo pelo poema
- a casa, o amor, a própria vida -
e quem com um poema arrisque tudo
- a rua, os amigos, a autoestima -

chega a parecer ofensa que o faças
sem um esforço
tão frágeis as palavras se acumulam
nesse intento.



9.6.15

Empatia

Levaste até ao fim a cara fúnebre
por respeito aos que ao teu lado
choravam.

Conhecias, no entanto, este cenário
onde uns são vencedores e outros
vencidos.

Saltaste só por dentro nessa alegria
impossibilitada de comungar sem
embaraço.

Aprendias, desse modo, a empatia
e o fluxo de todas as coisas neste
tempo.

3.6.15

Estradas vazias

Já todos escreveram sobre estradas vazias
mas poucos conduziram um carro
às três da madrugada de segunda-feira

a hora em que os corpos são projetos de morte
em busca de uma qualquer ressuscitação laboral

pois deixa-me que te diga o quão inócuo
pode ser este quadro de nada noturno
auto-estrada beijada pela humidade

Um ou outro cairá à vala comum é certo
já todos escreveram sobre mortes brutais
mas nem todos estão tão mortos quanto isso

1.6.15

Sentenças sem acesso ao avesso

Deslizas a mão pelo escalpe
já quase não tens pêlo

No espelho confirmas a barba
cada vez mais branca

O corpo ora alarga ora adelgaça
tudo é controlo efémero

As dores que te rasgam os ossos
levaram-te a paciência

Tudo isso se expressa tão certo
na manipulação do verso

Tornou-se impossível nos livros
compreender-te o avesso.

29.5.15

Agora só pergunto

Dias após dias
martelando
até que obra ínfima
fosse impossível
de salvar.

Era o processo, era o processo!

Agora só pergunto
não há mais lâmina
para afiar.

E em que tom vais tu dançar?

Martelo, pum, martelo.
Chi-ca-bum, martelo.
Onde a natureza é morta
sempre haverá o que quebrar.

28.5.15

Perguntar

Quantas vezes o regresso
nada tem de transgressor
pouco diz do que aparece
se faz mais no que nos falta?

Quantas vezes é apenas
recomeço ou coito estéril
sem noção da própria história
sem um mapa ou um plano?

Quantas vezes a pergunta
já não quer qualquer resposta
fica bem com um aceno
orgulhosamente calada?

Quantas vezes me esqueci
e insisti em não me lembrar?
Quantas vezes foi inútil
o próprio ato de perguntar?

23.2.15

Nunca em vão

A estrada com sol
A estrada com chuva
A estrada de noite
A estrada de dia
A estrada
A estrada
A estrada

19.2.15

Novo chão

O poema desliza como a terra
no dia em que o rio salta as margens
e as avós gritam de mãos na cabeça
a horta os bichos o muro velho.

Tenho os pés enterrados no novo chão.