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12.12.16

Brevemente...

O volume Famosas Últimas Palavras junta três livros que refazem o caminho poético de Luís Filipe Cristóvão. A cada um deles, um tema que serve apenas como despiste de uma leitura de pré-conceitos. Na “Fala do Artesão” são os cheiros da terra, entre o rural e o marítimo, que nos invadem a boca. Boca que explode em “Fronteira”, numa dimensão mais marcadamente política dos seus escritos. Tudo se encerra com “Casas Funerárias”, um pequeno livro de morte, onde o título do conjunto acabará por soar a inevitável ironia de quem sabe não vir a ser nem famoso, nem escutado, nem morto.

Brevemente, na Editora Jaguatirica


20.4.16

O caminho para casa - da ideia ao livro

No próximo dia 25 de abril de 2016, realiza-se a inauguração do novo espaço da Biblioteca Municipal de Torres Vedras. Na sua sala de exposições, será apresentada "O caminho para casa - da ideia ao livro", uma mostra que reúne documentação do processo de construção do livro "Pedro Gosta", de autoria de Luís Filipe Cristóvão e Miguel Carvalho, publicado pela Oficina Raquel. 

A simbologia desta data, que marca os quarenta e dois anos da Revolução dos Cravos em Portugal, encerra um percurso que não deixa de estar representado neste livro. Deste uma ideia, poética, sobre o que poderia ser um dia de uma criança, até à transformação dessa história numa chamada ao confronto com a realidade, das pessoas, das vilas e cidades, do mundo inteiro. 

Também não poderia imaginar um melhor lugar para festejar a Liberdade do que uma biblioteca, pelo espaço que ela nos abre para conhecer, entender e modificar o mundo. Por isso espero que esta caminhada feita pelo "Pedro" possa continuar, desbravando novos entendimentos e ajudando outros, como eu, a encontrar a sua casa. 








Texto de apresentação da exposição "O caminho para casa - da ideia ao livro"

O Pedro nasceu só feito de poesia. Tudo o que escrevo vai tentar buscar um referente qualquer real. Tudo o que escrevo violenta esse real inventando-lhe uma nova face. O que eu faço é operar sobre o real, em busca de um ficcional que satisfaça o ponto de chegada de qualquer trabalho literário: o ser poético.

Foi numa altura em que tentava viver nesse espaço radical de transformar tudo em acontecimento simulado. Encontrava algum conforto nessa simulação, como se vivesse uma realidade paralela onde encontrava as respostas que procurava para as minhas questões particulares. Caminhava assim em sentido contrário, uma vez alcançado efeito poético. Do real para a poesia, da poesia para a real. 

O texto em si não me recordo de ter sido trabalhoso. As palavras sempre me as senti poucas e limitadas. Foi sempre no ritmo que procurei dar um certo toque pessoal ao que contava. Já não sei quem me disse que eu falava como escrevo. É uma formulação curiosa, porque me imagina a escrever, primeiro, e só depois a falar. Também é assim que me vejo. Mesmo sem escrever, o texto acontece-me na cabeça. E o que sei é já um fenómeno de intensa revisão em busca de uma musica para o dizer. 

Não é, portanto, tanto o que se conta como a forma encontrada para o contar. E também aí o caminho tem sido algo ímpar. De começar a tentar entender os adultos para descobrir nas crianças algum tipo de resposta. Do querer crescer para entender que, lá chegado, não há melhor forma de ver as coisas do que com a informada inocência da infância. Sempre valorizei bastante as primeiras impressões, ou intuições, embora hoje desconfie de que esse é um atalho para aceitar a minha insegurança perante as minhas próprias opções. 

O livro como existe só acontece, no entanto, com os primeiros elementos enviados pelo Miguel e, sobretudo, com as camadas que ele encontrou descritas no texto. Digo que ele encontrou, uma vez mais, porque eu não as via como elas estavam lá. Via apenas a poesia onde estava um real. Um real forte, militante, participativo. Talvez tenha sido essa ajuda do Miguel quem me puxou a mim. 

Não preciso, portanto, de procurar na poesia uma resposta para o real. Aquilo que eu entendo hoje é que real e poesia coabitam de forma pacífica em todas as coisas, precisando nós, apenas, de um olhar atento que nos faça entender a fronteira de cada uma delas. A melhor resposta, no entanto, é a que nos permite o entendimento da fronteira, não como uma zona de separação, mas como uma zona de eterna festa dos sentidos. 

Escrever este texto é o meu último contributo para o que é este livro. Escrevo-o, agora de forma consciente, para o seu futuro de desconstrução. Porque para fazer livros continuaremos a simular poesia e realidade. Porque para nos entendermos a nós próprios, temos que reviver esses efeitos até que eles se gastem no nosso próprio corpo. Tudo o resto, é matéria de bibliotecas. 

O caminho para casa - da ideia ao livro
Exposição a partir do livro "Pedro Gosta"
de Luís Filipe Cristóvão e Miguel Carvalho

Biblioteca Municipal de Torres Vedras
de 25 de abril a 30 de junho de 2016

8.2.11

Uma questão de rimas

Visto à distância, talvez o livro da minha infância que mais me tenha marcado terá sido um livro grande, do qual não me lembro o nome. O que havia dentro desse livro de imensas páginas? Cantigas, rimas, adivinhas. Não sabia eu na altura, mas aprendi com esse livro muito daquilo que hoje me interessa sobre palavras, ritmo e tradição. Estas três ideias têm andado muito na minha cabeça e é à volta delas que eu vou desenvolvendo o meu trabalho na escrita. 

Pensando bem, essa influência revelou-se desde cedo. Lá por casa da minha mãe existem ainda muitas provas, em antigos cadernos da escola primária, da minha queda para a rima, já em tenra idade. Não posso dizer que a rima, hoje, seja algo que eu produza em quantidade. Mas na noção de rima está incluída uma outra noção muito mais importante, a de ritmo, e essa sim, é fundamental no que eu faço. Um texto sem ritmo, quem o poderia ler? Não eu. Seria incapaz de apresentar um texto sem ritmo, fosse a quem fosse. Daí a importância desse livrinho.

Outros livros foram importantes na minha infância. O primeiro livro sem ilustrações que eu li, nas Férias de Natal de 1985, as colecções de livros de aventuras que devorei até aos dez anos. Mas aquelas rimas e cantigas, essas sim, ficaram comigo para o resto da vida. 


publicado no suplemento Bruxinha do Jornal Região de Leiria de 4 de Fevereiro de 2011

25.1.11

Uma outra realidade

Há dias, uma editora dizia-me ansiar "pelo dia em que deixe de haver livrarias, que toda a gente compre livros na Internet". O argumento era duplo: primeiro porque ela compra tudo o que lhe interessa na Amazon, segundo porque os livreiros, ora não pagam, ora devolvem os livros danificados. Fiquei de tal forma chocado que me faltaram as palavras para responder. 

Num mundo sem livrarias, a maioria de nós não teria o que ler. Não consigo sequer imaginar o que seria não ter uma livraria por onde passear. As livrarias são os lugares onde sempre me senti mais à vontade. Eu também compro muitos livros na Internet, também tenho as minhas reservas em relação a muitos espaços onde o comércio dos livros acaba por ser uma forma mascarada de maltratar quem escreve e quem lê. Mas encaro o dia do encerramento da última livraria do mundo como o primeiro dia de um mundo onde eu não terei o mínimo gosto de viver. 

Tendemos sempre a sugerir a resolução das nossas frustrações com medidas de impacto radical imediato. Isto vale para o mais analfabeto, como para o mais intelectual dos humanos. A nossa mesquinhez é impossível de disfarçar. Nunca pensamos que a solução das coisas poderá advir do nosso esforço em contribuir para uma solução positiva. É sempre melhor eliminar o inimigo (por muito que a reflexão sobre esta hipótese a aproxime tão perigosamente de outras inesquecíveis "soluções"). 

Infelizmente, também acho que as livrarias irão acabar. E, pouco depois, os livros seguirão esse caminho. A ausência de rentabilidade do pensamento alternativo fará com que esse pensamento deixe de ser editado, passando a ser fruto do empreendedorismo dos seus autores (em blogues, em pequenas edições de autor, ...). A ausência de edição desvalorizará, por completo, a sua existência. Seremos uma sociedade autista, a comprar à distância sem perceber os problemas da nossa própria freguesia. 

A única esperança é que tudo isto aconteça, primeiro, num livro. Num livro que possa ser lido, pensado e discutido. Num livro que, depois de fechado, abra o caminho para que se a realidade seja diferente.