Mostrar mensagens com a etiqueta contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta contos. Mostrar todas as mensagens

28.4.12

Ele agora está velho - VI


Olhe, nem Aljezur, nem despedimento. O rapaz queria viajar. Andava sempre nas festas, nem tanto pelas festas, mas para andar de um lado para o outro. Ia a Aljezur, a Odeceixe, ao Cercal… E então quando eram as Festas de Beja, até pedia dias ao patrão. Uma vez disseram-me que o tinham visto em São Marcos da Serra, nas festas. Ele gostava de andar de um lado para o outro, tinha idade para isso, e olhe que ele não devia ganhar nada mal ali na loja. Mas o patrão queria alguém mais sossegado. Cá para mim, quando ele foi para Aljezur, já sabia que não tinha emprego, já deviam ter tido essa conversa. Por isso é que ele se meteu naquela briga por lá, ele nunca se metia nisso. Ele ia às festas para ver as pessoas, para lhes ouvir as conversas. Sei disso pelo que ele me contava. Era passar ali à porta da loja e lá estava ele sempre pronto para dizer coisas. Para contar onde tinha andado, o que tinha feito. Quando voltou de Aljezur é que já não falava muito. Quantos dias foram? A gente até pensava que ele tinha morrido para lá. A festa foi no domingo e ele apareceu aí na quinta-feira. Vinha todo sujo, ele que era um rapaz de se arranjar, de andar direitinho, era um homem de trabalho, mas gostava de fazer figura. Apareceu na quinta-feira e vinha pendurado numa camioneta das batatas. Ao que sei, apanharam-no ali no Vale do Juncalinho, está a ver onde é? Devia voltar a pé. Naquele tempo era assim, a gente bem gostava da camioneta, mas não havendo dinheiro, olhe, a malta desenrascava-se a pé. O que é que ele lá ficou a fazer? Quem lhe disse que ele ficou por lá? Não. Cá para mim foi ver o mar. Ele falava muito disso. Que havia de ir uns dias ver o mar. E ali de Aljezur à praia aquilo era um saltinho. Vai-se a ver e ele queria era ser marinheiro. Foi para ali à procura de alguma fragata, o rapaz. Ele não era doido, mas gostava. E se não tinha ninguém à espera dele aqui, para quê voltar. Foi ver o mar, para mim é certinho, foi ver o mar. E depois de andar ali uns dias lá pensou que voltava a pé para a terra. Por isso é que o encontraram na quinta-feira, por lá. E trouxeram-no para aqui. Trouxeram-no para aqui e em vez de ir para casa mudar de roupa, sentaram-no na taberna, queriam que comesse, que bebesse um copo, que contasse o que lhe tinha acontecido. Mas ele nunca mais falou muito. Ficou ali, deixou-se de ser amigo de falar. 

26.4.12

Ele agora está velho - IV


Pois foi, houve algazarra lá, houve. Mas não foi nada disso. Ele desafiou um rapaz que estava no tiro ao alvo. Desafiou o rapaz e apostaram quem acertava no alvo. E o rapaz atirou aquilo direitinho no centro do alvo. Mesmo direitinho. E disse-lhe que se calhar nem valia a pena era gastar o tiro que a aposta estava ganha. Ele nem o olhou. Pegou na espingarda, botou um tiro mesmo dentro do buraco do outro, como se fossem tiros iguais, dois tiros e só um furinho no papel do alvo e depois largou a espingarda e deu-lhe aquela batatada na cara que o outro ficou parvo. Ficou parvo e caiu de cu, ali na feira. Mas nem reagiu. Ficou quieto. E ele seguiu caminho e foi para a taberna beber um copo. Eu cá para mim acho que ele já não andava certo. Já tinha havido coisa. Não foi daquele dia. Ele já vinha com coisas na cabeça. Eu cá para mim já havia problemas com o patrão. Ele ficava muito tempo à porta da loja, a falar com as moças, com as freguesas, e o patrão queria-o lá atrás do balcão, como nas lojas de Lisboa, está a ver, em que os moços ficam atrás de balcão, assim direitinhos, à espera. Ele não era nada disso. Acendia um cigarro e ficava ali à porta, a chamar as freguesas. E as raparigas passavam e falavam com ele, ele fazia-as rir, era assim. Era bom tipo. Tirando os repentes, era bom tipo. Mas já havia ali coisa, não foi em Aljezur. Aquilo foi uma briga normal de rapazes. Ele é que já tinha coisas na cabeça. E era o patrão. O patrão ou a Cidinha. Alguma coisa era. Já sabe da Cidinha não sabe? Essa rapariga tinha o diabo no corpo. Ai é que tinha mesmo. O pai chegou a levá-la ao médico e tudo. Aquilo parecia um furacão quando passava na rua. O pai queria-a em casa e ela gritava e saía de casa, parecia doida. Só ele é que sabia falar com ela. Mais ninguém.

25.4.12

Ele agora está velho - III


Olhe, eu posso garantir-lhe que houve mesmo pancada lá em Aljezur. Eu sei porque estava lá, então não houvera de estar. Era a festa de Aljezur, porra, toda a gente ia lá ao domingo. Aquilo foi assim, estavam uns rapazes na barraca do tiro ao alvo quando ele se chegou a olhar. Acho que era rapaziada de fora, pela algazarra que faziam, ou então já vinham com a festa de ontem, está a perceber? Aquilo era tiro no alvo e tiro em toda a parte e ele chegou-se a olhar, daquela maneira que ele olhava, sabe? Ele ficava assim encostado com o cigarro no canto da boca, tinha visto aquilo num jornal, que era dos filmes ou o raio. Ele põe-se assim e a algazarra começa-se a virar para ele. Houve ali umas palavras, de um lado para o outro, e olhe, ele era um rapaz sossegado, mas está a ver, tinha aquele feitio de ser alto e olhava os outros… Bem, aqueles não o conheciam e não gostaram. Atiraram-se a ele, mas ele tinha uns braços que parecia um touro. E ele guardava a força toda. Ele guardava aquela força durante semanas e semanas em que não se zangava com ninguém e depois quando dava um soco, deus te livre, o primeiro rapaz que se chegou a ele levou naquela cara com tanta força que deve ter ficado com a cara pisada durante semanas. Depois eles eram muitos e atiraram-se a ele e ele ainda lhes deu luta. A gente queria ir ajudá-lo mas ele negava-se. Gostava de se meter naquilo sozinho. Também aquilo durou enquanto  o diabo esfregou o olho, ele deu o soco a um, uns pontapés nos costados de outro, eles eram quantos, uns quatro ou cinco, puseram-se à roda dele, mas já estava o dono da barraca a chamar pela Guarda, com medo que lhe caíssem em cima das coisas e lhe deitassem aquilo tudo ao chão, e a rapaziada endireitou-se toda e foi cada um à sua vida. Eu cá acho que foi só isso. Cada um à sua vida. Ele lá devia ter mais alguma coisa.

24.4.12

Ele agora está velho - II


Dizem que todas as histórias são histórias de amor, não é? Mas esta não é. Ele era um rapaz todo bem posto, era, e ficou assim quando a Cidinha casou. A Cidinha era mesmo a rapariga mais bonita da aldeia. Mas não foi por isso que ele ficou ali, a passar os dias inteiros na paragem de autocarro. Não, ele ficou ali porque o patrão o despediu. Num domingo dizem que ele foi à festa de Aljezur. Apanhou a camioneta e lá foi ele, para a festa. A festa de Aljezur era bem grande, naquele tempo. Tinha barraquinhas de tiro ao alvo, tinha o baile da matiné, umas vendas de bebidas, uns jogos para os rapazes. Ele foi para lá, ainda demora um tempo grande a lá chegar, mas naquele dia havia camionetas bem cedo, porque muita gente ia à festa. O que eu sei é que ao fim da tarde, quando a camioneta veio de volta, ele não estava lá. Já foi há tanto tempo. Mas ele não estava lá, isso é certo. Passaram dois, três dias e ninguém sabia do homem. Uns já diziam que tinha se metido numa bulha com rapazes de lá e que a Guarda o tinha preso. Não sei bem o que aconteceu, não lhe sei dizer. Eu também fui a Aljezur nesse dia. Apanhei a camioneta com ele. Eram uma sete da manhã e já estava um calor dos diabos. Fumámos um cigarrito antes da camioneta chegar. Ele já não falava muito, fizemos o caminho todo meio calados. Havia umas moças que iam mais animadas, na frente. Nós íamos com a atenção dos rapazes, está a ver, a ouvi-las assim, a conversar, a gente a ouvir. Um ou outro mais malandreco lá tentava dizer alguma coisa, mas elas mandavam-nos estar calados. Sabíamos se falássemos muito, elas não diziam nada, e a gente queria era ouvi-las. Chegámos lá antes da hora de almoço. Havia muita gente em frente à Igreja, a sair da missa. Já estava a festa toda montada, então aquilo já durava há dois ou três dias, a gente é que só podia lá ir ao domingo. Eu ainda andei com ele um bocado, a ver aquilo, a beber um copo. Depois fomos aos jogos e deixei de o ver. Mas não, não houve bulha nenhuma, aquilo era tudo gente boa. Tudo sossegado. Ele lá foi à vida dele e não voltou na camioneta. E depois foi isso.

23.4.12

Ele agora está velho - I


Ele agora está velho, mas era um rapaz todo bem posto. Enamorou-se da Cidinha, a filha do patrão aqui da aldeia. Toda a gente lhe disse que não era grande ideia, ficar assim apaixonado pela rapariga. Mas os homens, sabe como são, os homens são mesmo assim, metem uma ideia na cabeça e depois tirá-la? Não se tira. A Cidinha era mesmo a rapariga mais bonita da aldeia, nisso ele não foi nada parvo a escolher. Mas ela lidava com os meninos de Lisboa, que passavam aí no Verão. Tinha primos que eram  estudantes. Tinha uma tia em Beja que queria que ela estudasse. E então era com este rapaz que ela ia casar? Pois está claro que não. Ele agora está velho, mas naquela altura não era nada de mandar fora. A Cidinha é que estava habituada a outras coisas. Rapazes perfumados, com camisas bonitas, engomadas. Sapatos engraxados. Como é que ela ia ligar para um rapaz com botas do campo, com as unhas cheias de terra. Foi uma tontice. Começou a ver-se pela cara dele na taberna, a olhar para o sol no meio da praça, a ficar calado. Os outros rapazes punham-lhe copos à frente e ele parecia que tinha perdido a força nos braços, nem bebia aquilo. E isto foi quando? Foi quando a Cidinha se casou. Pois. Ela casou-se e ele ficou naquele desânimo. Naquele apagamento. Ficou assim como está para ali, velho num repente.