Olhe, nem Aljezur, nem despedimento. O rapaz queria viajar.
Andava sempre nas festas, nem tanto pelas festas, mas para andar de um lado
para o outro. Ia a Aljezur, a Odeceixe, ao Cercal… E então quando eram as
Festas de Beja, até pedia dias ao patrão. Uma vez disseram-me que o tinham
visto em São Marcos da Serra, nas festas. Ele gostava de andar de um lado para
o outro, tinha idade para isso, e olhe que ele não devia ganhar nada mal ali na
loja. Mas o patrão queria alguém mais sossegado. Cá para mim, quando ele foi
para Aljezur, já sabia que não tinha emprego, já deviam ter tido essa conversa.
Por isso é que ele se meteu naquela briga por lá, ele nunca se metia nisso. Ele
ia às festas para ver as pessoas, para lhes ouvir as conversas. Sei disso pelo
que ele me contava. Era passar ali à porta da loja e lá estava ele sempre
pronto para dizer coisas. Para contar onde tinha andado, o que tinha feito.
Quando voltou de Aljezur é que já não falava muito. Quantos dias foram? A gente
até pensava que ele tinha morrido para lá. A festa foi no domingo e ele apareceu
aí na quinta-feira. Vinha todo sujo, ele que era um rapaz de se arranjar, de
andar direitinho, era um homem de trabalho, mas gostava de fazer figura.
Apareceu na quinta-feira e vinha pendurado numa camioneta das batatas. Ao que
sei, apanharam-no ali no Vale do Juncalinho, está a ver onde é? Devia voltar a
pé. Naquele tempo era assim, a gente bem gostava da camioneta, mas não havendo
dinheiro, olhe, a malta desenrascava-se a pé. O que é que ele lá ficou a fazer?
Quem lhe disse que ele ficou por lá? Não. Cá para mim foi ver o mar. Ele falava
muito disso. Que havia de ir uns dias ver o mar. E ali de Aljezur à praia
aquilo era um saltinho. Vai-se a ver e ele queria era ser marinheiro. Foi para
ali à procura de alguma fragata, o rapaz. Ele não era doido, mas gostava. E se
não tinha ninguém à espera dele aqui, para quê voltar. Foi ver o mar, para mim
é certinho, foi ver o mar. E depois de andar ali uns dias lá pensou que voltava
a pé para a terra. Por isso é que o encontraram na quinta-feira, por lá. E
trouxeram-no para aqui. Trouxeram-no para aqui e em vez de ir para casa mudar
de roupa, sentaram-no na taberna, queriam que comesse, que bebesse um copo, que
contasse o que lhe tinha acontecido. Mas ele nunca mais falou muito. Ficou ali,
deixou-se de ser amigo de falar.
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28.4.12
26.4.12
Ele agora está velho - IV
Pois foi, houve algazarra lá, houve. Mas não foi nada disso.
Ele desafiou um rapaz que estava no tiro ao alvo. Desafiou o rapaz e apostaram
quem acertava no alvo. E o rapaz atirou aquilo direitinho no centro do alvo.
Mesmo direitinho. E disse-lhe que se calhar nem valia a pena era gastar o tiro
que a aposta estava ganha. Ele nem o olhou. Pegou na espingarda, botou um tiro
mesmo dentro do buraco do outro, como se fossem tiros iguais, dois tiros e só
um furinho no papel do alvo e depois largou a espingarda e deu-lhe aquela
batatada na cara que o outro ficou parvo. Ficou parvo e caiu de cu, ali na
feira. Mas nem reagiu. Ficou quieto. E ele seguiu caminho e foi para a taberna
beber um copo. Eu cá para mim acho que ele já não andava certo. Já tinha havido
coisa. Não foi daquele dia. Ele já vinha com coisas na cabeça. Eu cá para mim
já havia problemas com o patrão. Ele ficava muito tempo à porta da loja, a
falar com as moças, com as freguesas, e o patrão queria-o lá atrás do balcão,
como nas lojas de Lisboa, está a ver, em que os moços ficam atrás de balcão,
assim direitinhos, à espera. Ele não era nada disso. Acendia um cigarro e
ficava ali à porta, a chamar as freguesas. E as raparigas passavam e falavam
com ele, ele fazia-as rir, era assim. Era bom tipo. Tirando os repentes, era
bom tipo. Mas já havia ali coisa, não foi em Aljezur. Aquilo foi uma briga
normal de rapazes. Ele é que já tinha coisas na cabeça. E era o patrão. O
patrão ou a Cidinha. Alguma coisa era. Já sabe da Cidinha não sabe? Essa
rapariga tinha o diabo no corpo. Ai é que tinha mesmo. O pai chegou a levá-la
ao médico e tudo. Aquilo parecia um furacão quando passava na rua. O pai
queria-a em casa e ela gritava e saía de casa, parecia doida. Só ele é que
sabia falar com ela. Mais ninguém.
25.4.12
Ele agora está velho - III
Olhe, eu posso garantir-lhe que houve mesmo pancada lá em
Aljezur. Eu sei porque estava lá, então não houvera de estar. Era a festa de
Aljezur, porra, toda a gente ia lá ao domingo. Aquilo foi assim, estavam uns
rapazes na barraca do tiro ao alvo quando ele se chegou a olhar. Acho que era
rapaziada de fora, pela algazarra que faziam, ou então já vinham com a festa de
ontem, está a perceber? Aquilo era tiro no alvo e tiro em toda a parte e ele
chegou-se a olhar, daquela maneira que ele olhava, sabe? Ele ficava assim
encostado com o cigarro no canto da boca, tinha visto aquilo num jornal, que
era dos filmes ou o raio. Ele põe-se assim e a algazarra começa-se a virar para
ele. Houve ali umas palavras, de um lado para o outro, e olhe, ele era um rapaz
sossegado, mas está a ver, tinha aquele feitio de ser alto e olhava os outros…
Bem, aqueles não o conheciam e não gostaram. Atiraram-se a ele, mas ele tinha
uns braços que parecia um touro. E ele guardava a força toda. Ele guardava
aquela força durante semanas e semanas em que não se zangava com ninguém e
depois quando dava um soco, deus te livre, o primeiro rapaz que se chegou a ele
levou naquela cara com tanta força que deve ter ficado com a cara pisada
durante semanas. Depois eles eram muitos e atiraram-se a ele e ele ainda lhes
deu luta. A gente queria ir ajudá-lo mas ele negava-se. Gostava de se meter
naquilo sozinho. Também aquilo durou enquanto
o diabo esfregou o olho, ele deu o soco a um, uns pontapés nos costados
de outro, eles eram quantos, uns quatro ou cinco, puseram-se à roda dele, mas
já estava o dono da barraca a chamar pela Guarda, com medo que lhe caíssem em
cima das coisas e lhe deitassem aquilo tudo ao chão, e a rapaziada
endireitou-se toda e foi cada um à sua vida. Eu cá acho que foi só isso. Cada
um à sua vida. Ele lá devia ter mais alguma coisa.
24.4.12
Ele agora está velho - II
Dizem que todas as histórias são histórias de amor, não é?
Mas esta não é. Ele era um rapaz todo bem posto, era, e ficou assim quando a
Cidinha casou. A Cidinha era mesmo a rapariga mais bonita da aldeia. Mas não
foi por isso que ele ficou ali, a passar os dias inteiros na paragem de
autocarro. Não, ele ficou ali porque o patrão o despediu. Num domingo dizem que
ele foi à festa de Aljezur. Apanhou a camioneta e lá foi ele, para a festa. A
festa de Aljezur era bem grande, naquele tempo. Tinha barraquinhas de tiro ao
alvo, tinha o baile da matiné, umas vendas de bebidas, uns jogos para os
rapazes. Ele foi para lá, ainda demora um tempo grande a lá chegar, mas naquele
dia havia camionetas bem cedo, porque muita gente ia à festa. O que eu sei é
que ao fim da tarde, quando a camioneta veio de volta, ele não estava lá. Já foi
há tanto tempo. Mas ele não estava lá, isso é certo. Passaram dois, três dias e
ninguém sabia do homem. Uns já diziam que tinha se metido numa bulha com
rapazes de lá e que a Guarda o tinha preso. Não sei bem o que aconteceu, não
lhe sei dizer. Eu também fui a Aljezur nesse dia. Apanhei a camioneta com ele.
Eram uma sete da manhã e já estava um calor dos diabos. Fumámos um cigarrito
antes da camioneta chegar. Ele já não falava muito, fizemos o caminho todo meio
calados. Havia umas moças que iam mais animadas, na frente. Nós íamos com a
atenção dos rapazes, está a ver, a ouvi-las assim, a conversar, a gente a
ouvir. Um ou outro mais malandreco lá tentava dizer alguma coisa, mas elas
mandavam-nos estar calados. Sabíamos se falássemos muito, elas não diziam nada,
e a gente queria era ouvi-las. Chegámos lá antes da hora de almoço. Havia muita
gente em frente à Igreja, a sair da missa. Já estava a festa toda montada,
então aquilo já durava há dois ou três dias, a gente é que só podia lá ir ao domingo.
Eu ainda andei com ele um bocado, a ver aquilo, a beber um copo. Depois fomos
aos jogos e deixei de o ver. Mas não, não houve bulha nenhuma, aquilo era tudo
gente boa. Tudo sossegado. Ele lá foi à vida dele e não voltou na camioneta. E
depois foi isso.
23.4.12
Ele agora está velho - I
Ele agora está velho, mas era um rapaz todo bem posto.
Enamorou-se da Cidinha, a filha do patrão aqui da aldeia. Toda a gente lhe
disse que não era grande ideia, ficar assim apaixonado pela rapariga. Mas os
homens, sabe como são, os homens são mesmo assim, metem uma ideia na cabeça e
depois tirá-la? Não se tira. A Cidinha era mesmo a rapariga mais bonita da
aldeia, nisso ele não foi nada parvo a escolher. Mas ela lidava com os meninos
de Lisboa, que passavam aí no Verão. Tinha primos que eram estudantes. Tinha uma tia em Beja que queria
que ela estudasse. E então era com este rapaz que ela ia casar? Pois está claro
que não. Ele agora está velho, mas naquela altura não era nada de mandar fora.
A Cidinha é que estava habituada a outras coisas. Rapazes perfumados, com
camisas bonitas, engomadas. Sapatos engraxados. Como é que ela ia ligar para um
rapaz com botas do campo, com as unhas cheias de terra. Foi uma tontice.
Começou a ver-se pela cara dele na taberna, a olhar para o sol no meio da
praça, a ficar calado. Os outros rapazes punham-lhe copos à frente e ele
parecia que tinha perdido a força nos braços, nem bebia aquilo. E isto foi
quando? Foi quando a Cidinha se casou. Pois. Ela casou-se e ele ficou naquele
desânimo. Naquele apagamento. Ficou assim como está para ali, velho num
repente.
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