Quatro mulheres atravessam
abraçadas
a estrada de uma rua ventosa.
O carro abranda.
13.7.15
12.7.15
6.7.15
Arco do Cego
Porque o que invento,
copio.
Porque o que quero,
compro.
Porque o que tenho,
roubei.
Porque o que prevejo
nunca adivinho.
Sem bem nem mal
O que vai ser de nós sem os pais
aqueles que nos seguram pela mão
nos conduzem pelas estradas
nos indicam os sonhos mais rentáveis?
O que vai ser de nós sem os professores
que de régua em riste nos metem na ordem
nos asseguram a nossa educação
nos permitem fazer deste mundo melhor?
O que vai ser de nós sem os bárbaros
aqueles que nos permitem a cobiça
nos aquecem os pensamentos
nos dobram em pesadelos nocturnos?
O que vai ser de nós?
O que vai ser de nós?
2.7.15
Tabacaria Atenas
Não sou grego.
Nunca serei grego.
Não posso querer ser grego.
À parte isso, tenho em mim todas as dores do mundo.
1.7.15
Eurozona
Agora que vejo nos mercados
lutar-se abertamente
pelo poder
percebo melhor a Dona Micas
chorando ao retirarem-lhe
a banca
onde sempre vendeu
as suas cebolas.
29.6.15
24.6.15
Poética
O meu poema é sexta-feira
desejado como caminho
onde se passa a correr
para chegar ao outro lado
onde não estou eu,
nem o meu poema.
desejado como caminho
onde se passa a correr
para chegar ao outro lado
onde não estou eu,
nem o meu poema.
22.6.15
Solstício
Repousando a voz
que rasga céus inteiros
como tempestades
surpreendendo
crianças na praia
Janita Salomé contempla
um trio de sardinhas assando
junto às altas paredes
do Forte de Cacela Velha.
que rasga céus inteiros
como tempestades
surpreendendo
crianças na praia
Janita Salomé contempla
um trio de sardinhas assando
junto às altas paredes
do Forte de Cacela Velha.
19.6.15
Português suave
Estás fora de jogo,
sempre fora de jogo,
porque te armaste em forte
quando queriam tipos frágeis,
porque te armas em suave
quando querem gajas rudes.
sempre fora de jogo,
porque te armaste em forte
quando queriam tipos frágeis,
porque te armas em suave
quando querem gajas rudes.
17.6.15
Lenhador
Não precisas de ser lenhador
para comprar um machado,
para afiares uma lâmina
e procurar no meio do mato
uma árvore genealógica,
cortá-la em dois ou três golpes.
Não precisas de ser lenhador
basta querer e fazer.
para comprar um machado,
para afiares uma lâmina
e procurar no meio do mato
uma árvore genealógica,
cortá-la em dois ou três golpes.
Não precisas de ser lenhador
basta querer e fazer.
15.6.15
Feira cabisbaixa
Qualquer coisa de ti se perdeu
enquanto continuas em busca
de te encontrar
É por isso que fechas os olhos
quando na rua te cruzas com quem
não queres falar
É por isso que entras na feira
sem teres a certeza de ser esse
o teu lugar
enquanto continuas em busca
de te encontrar
É por isso que fechas os olhos
quando na rua te cruzas com quem
não queres falar
É por isso que entras na feira
sem teres a certeza de ser esse
o teu lugar
11.6.15
Menos é menos
Há quem arrisque tudo pelo poema
- a casa, o amor, a própria vida -
e quem com um poema arrisque tudo
- a rua, os amigos, a autoestima -
chega a parecer ofensa que o faças
sem um esforço
tão frágeis as palavras se acumulam
nesse intento.
- a casa, o amor, a própria vida -
e quem com um poema arrisque tudo
- a rua, os amigos, a autoestima -
chega a parecer ofensa que o faças
sem um esforço
tão frágeis as palavras se acumulam
nesse intento.
9.6.15
Empatia
Levaste até ao fim a cara fúnebre
por respeito aos que ao teu lado
choravam.
Conhecias, no entanto, este cenário
onde uns são vencedores e outros
vencidos.
Saltaste só por dentro nessa alegria
impossibilitada de comungar sem
embaraço.
Aprendias, desse modo, a empatia
e o fluxo de todas as coisas neste
tempo.
por respeito aos que ao teu lado
choravam.
Conhecias, no entanto, este cenário
onde uns são vencedores e outros
vencidos.
Saltaste só por dentro nessa alegria
impossibilitada de comungar sem
embaraço.
Aprendias, desse modo, a empatia
e o fluxo de todas as coisas neste
tempo.
3.6.15
Estradas vazias
Já todos escreveram sobre estradas vazias
mas poucos conduziram um carro
às três da madrugada de segunda-feira
a hora em que os corpos são projetos de morte
em busca de uma qualquer ressuscitação laboral
pois deixa-me que te diga o quão inócuo
pode ser este quadro de nada noturno
auto-estrada beijada pela humidade
Um ou outro cairá à vala comum é certo
já todos escreveram sobre mortes brutais
mas nem todos estão tão mortos quanto isso
mas poucos conduziram um carro
às três da madrugada de segunda-feira
a hora em que os corpos são projetos de morte
em busca de uma qualquer ressuscitação laboral
pois deixa-me que te diga o quão inócuo
pode ser este quadro de nada noturno
auto-estrada beijada pela humidade
Um ou outro cairá à vala comum é certo
já todos escreveram sobre mortes brutais
mas nem todos estão tão mortos quanto isso
1.6.15
Sentenças sem acesso ao avesso
Deslizas a mão pelo escalpe
já quase não tens pêlo
No espelho confirmas a barba
cada vez mais branca
O corpo ora alarga ora adelgaça
tudo é controlo efémero
As dores que te rasgam os ossos
levaram-te a paciência
Tudo isso se expressa tão certo
na manipulação do verso
Tornou-se impossível nos livros
compreender-te o avesso.
já quase não tens pêlo
No espelho confirmas a barba
cada vez mais branca
O corpo ora alarga ora adelgaça
tudo é controlo efémero
As dores que te rasgam os ossos
levaram-te a paciência
Tudo isso se expressa tão certo
na manipulação do verso
Tornou-se impossível nos livros
compreender-te o avesso.
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