O volume Famosas Últimas Palavras junta três livros que refazem o caminho poético de Luís Filipe Cristóvão. A cada um deles, um tema que serve apenas como despiste de uma leitura de pré-conceitos. Na “Fala do Artesão” são os cheiros da terra, entre o rural e o marítimo, que nos invadem a boca. Boca que explode em “Fronteira”, numa dimensão mais marcadamente política dos seus escritos. Tudo se encerra com “Casas Funerárias”, um pequeno livro de morte, onde o título do conjunto acabará por soar a inevitável ironia de quem sabe não vir a ser nem famoso, nem escutado, nem morto.
12.12.16
30.9.16
MCMLXXIX
Como a luz, num caixão, escondida para sempre,
ou as palavras engolidas com um copo de água,
depois das refeições, até que o silêncio se instale
por dentro e não saibas sequer como falar, no dia
em que finalmente entendes o que tens para dizer.
22.8.16
Porta
Uma porta é uma porta, dizes tu quase calado, enquanto
tentas perceber se há barulho do outro lado, uma voz ou
um movimento, qualquer coisa que denuncie a existência
de uma razão de ser para a porta, aquela porta, fechada
à tua frente. Porque se bem te lembras uma porta é uma
porta, para teres a certeza procuras no dicionário e lês,
entrar, sair, acesso, admissão, solução, expediente, tudo
coisas para passar, onde há uma porta há o deste lado e
o do outro. Mas tentas entender e para esta porta não há
sinal de nada. Já perguntaste até ao médico se não será
um problema do ouvido, mas não. Tudo está certo com a
audição, com certeza será questão de entendimento, eras
tu e a bata branca e um sorriso que se prepara para buscar
a razão para, de entre todas as portas, a tua, estar fechada.
19.8.16
Vintes de agosto
Aos vintes de agosto chovia em Santa Cruz e
nem sequer havia quem fosse connosco andar
de bicicleta ou jogar à bola na areia, como nos
outros dias de verão em que ainda não eram
vintes, nem talvez agosto, mas também chovia
em Santa Cruz. Eu olhava o vazio pela janela
do quarto e voltava a deitar-me no chão, umas
caricas entre os dedos, a inventar jogos que
ficavam registados em cadernos com os nomes
dos jogadores, os resultados, uma passagem do
tempo em versão acelerada que nem os vintes
nem agosto conseguiam parar. Uns dias depois,
voltaria ao calor e aos amigos da escola, mas o
olhar ficaria para sempre preso no vazio da janela.
nem sequer havia quem fosse connosco andar
de bicicleta ou jogar à bola na areia, como nos
outros dias de verão em que ainda não eram
vintes, nem talvez agosto, mas também chovia
em Santa Cruz. Eu olhava o vazio pela janela
do quarto e voltava a deitar-me no chão, umas
caricas entre os dedos, a inventar jogos que
ficavam registados em cadernos com os nomes
dos jogadores, os resultados, uma passagem do
tempo em versão acelerada que nem os vintes
nem agosto conseguiam parar. Uns dias depois,
voltaria ao calor e aos amigos da escola, mas o
olhar ficaria para sempre preso no vazio da janela.
9.8.16
35 graus em Santa Cruz
Como um gelado que se derrete sobre a
mesa da esplanada na tarde de verão onde
os olhos se fecham e as vozes que se ouvem
são apenas uma repetição de outras tantas
férias que já só têm lugar na memória. Lá mais
para cima, um casal de poetas esconde-se à
sombra, comendo pequenas folhas de alface
e seguindo, à risca, as indicações do médico
que aconselhou o consumo moderado de álcool
e açúcar. Caipirinhas nunca mais, confessa o
empregado de mesa, enquanto quatro senhoras
sorriem e pensam como seria bom voltar a ter
dezoito anos para poder olhar aquele jovem
sem culpa. Como um gelado que se derrete.
8.8.16
Português sem filtro
Com um martelo quebra as montras onde vê
a sua própria imagem refletida, incapaz de fazer
as pazes com os seus próprios falhanços. Exige
dos outros aquilo que não consegue para si próprio,
ensaia o discurso de pai inserindo sentenças nas
cabeças calvas dos que se dignam a ouvi-lo. Fala,
a maior parte do tempo, sozinho, sem ninguém que
se determine a cumprir-lhe as indicações ou a beber-lhe
os conselhos. Não entendeu ainda que com martelos
não se caçam borboletas, nem se escrevem poemas
em folhas brancas de computador. Não entendeu,
sequer, que o lá fora dos velhos clássicos é ainda
mais seco e inócuo do que o seu próprio comércio,
apenas filtrado pelo tempo - o que tudo cura.
Mínimos Olímpicos
Não há como evitar a confusão, nem como dormir
sossegado na aldeia olímpica em que se transformou
esta parte da cidade. Não há já braçadas que nos
livrem de uma sorte que nos empurra a competir
com os nossos próprios fantasmas, não há corrente
de bicicleta que não salte sobre o empedrado onde
antigamente desenhávamos apenas o caminho
para as férias. Não há como evitar línguas obscuras,
nem como perceber todas as mensagens, não nos
prepararam para que os jogos fossem tão mais
exigentes para nós próprios do que para aquilo
que se vai repetindo em slow motion na televisão.
Não há como evitar a confusão, pensamos nós,
falhando os mínimos determinados pela federação.
sossegado na aldeia olímpica em que se transformou
esta parte da cidade. Não há já braçadas que nos
livrem de uma sorte que nos empurra a competir
com os nossos próprios fantasmas, não há corrente
de bicicleta que não salte sobre o empedrado onde
antigamente desenhávamos apenas o caminho
para as férias. Não há como evitar línguas obscuras,
nem como perceber todas as mensagens, não nos
prepararam para que os jogos fossem tão mais
exigentes para nós próprios do que para aquilo
que se vai repetindo em slow motion na televisão.
Não há como evitar a confusão, pensamos nós,
falhando os mínimos determinados pela federação.
O construtor
Ele já sabe o que é estar às portas da
morte sem que ninguém o deixe entrar,
tal como sabe como se escreve mil vezes
o mesmo poema até que tudo lhe pareça
muito mais dor do que a própria dor que sente.
Ele já correu pelas escadarias da mente as
maratonas do desejo e entende perfeitamente
que do silêncio só pode nascer incompreensão
ou outra qualquer coisa que nos impeça de crescer.
Gostar sozinho parece bonito, como um quadro
grande na parede de um museu, mas que nada
diz ao artista que não seja do passado das coisas
como elas podem ser vividas - de mãos e braços
abertos para a complexa construção do amor.
morte sem que ninguém o deixe entrar,
tal como sabe como se escreve mil vezes
o mesmo poema até que tudo lhe pareça
muito mais dor do que a própria dor que sente.
Ele já correu pelas escadarias da mente as
maratonas do desejo e entende perfeitamente
que do silêncio só pode nascer incompreensão
ou outra qualquer coisa que nos impeça de crescer.
Gostar sozinho parece bonito, como um quadro
grande na parede de um museu, mas que nada
diz ao artista que não seja do passado das coisas
como elas podem ser vividas - de mãos e braços
abertos para a complexa construção do amor.
2.8.16
O caminho
Se estás sempre a aprender, porque nunca
aprendes, pensas tu com o peito inquieto e
a boca seca, a garganta que dói, o sol já te
queima por dentro e ainda nem começou bem
o verão. Se o mundo se constrói pela palavra,
porque estão estas sempre a derrubar-te, seja
do poiso incerto onde te ergues, seja do chão
pantanoso que pisas, a cada dia onde ainda te
procuras sem nunca, nunca, te encontrares. Se
o resto do caminho vai ser feito apenas para que
morras devagar, as flores deixa-as ficar quietas no
seu canteiro, não as arranques nem guardes num
vaso, as cerimónias não nos servem de nada, se o
resto do caminho vai ser só o que poderia ter sido.
30.7.16
O fotógrafo aprendiz
Para o Afonso Faustino
Preferir a gradação da noite, onde os contrastes
entre negro e branco se evidenciam naturalmente,
enquanto se aprende a desfocar os cabelos longos
daquela que corre sem parar pelo jardim, agora
invadido por uns quantos acordes eletrónicos e
luzes metálicas, a sublinhar azuis ou vermelhos
apenas evidentes ao olhar do fotógrafo aprendiz.
Assim se inicia a história de um mundo, todos os
dias uma vez mais, quando alguém tem catorze
anos e todas as certezas que o tempo nos pode
dar, sem procurar ainda, fora da lente, um outro
matiz, um outro olhar, que se esconde em código
entre a multidão, mas que acabará descoberto
quando, sob lupa, se revelar o trabalho no computador.
29.7.16
Obituário
Ali naquela estrada jaz o cadáver do encontro que
não aconteceu, enquanto os carros continuam a descer
pelo alcatrão, a fazer pisca, a olhar quem vem lá, com
destinos incertos e tantas vezes inseguros, mas nenhuma
preocupação. Logo ali, naquela janela que não faço ideia
qual seja, escondes-te tu e os teus óculos escuros, usados
para não ver o mundo que te saúda ou os poemas que
nascem das rotundas mal plantadas por aí. Alguma vez
te disseram que a arte nasce das coisas que não acontecem
na vida real? Alguma vez te sorriram sem que nada quisessem
de ti? Porque o mundo não é assim tão mau quando pomos
finalmente as mãos na terra para deixar que o medo
não tenha mais poder sobre nós ou as nossas vontades.
Ali naquela estrada jaz o adeus ao que nunca aconteceu.
Revolução
E se um dia abrires, finalmente, os olhos para
a revolução, vais saber que as ruas são livres
e os corpos se despem por inteiro entre as frases
que ficam por dizer nos lábios que não se beijam.
Porque se um dia acordares e conquistares o
teu direito a seres quem tu bem quiseres, é certo,
não te faltará o tempo nem o modo para ergueres
os braços e as mãos agarrando o mundo inteiro.
Pode ser de noite e no escuro nada vês ou pode
ser de tarde com o sol alto a cegar-te ou pode ser
de manhã com o espesso nevoeiro a encobrir-te.
Pode ser tudo, nada te pára, porque tu és revolução.
a revolução, vais saber que as ruas são livres
e os corpos se despem por inteiro entre as frases
que ficam por dizer nos lábios que não se beijam.
Porque se um dia acordares e conquistares o
teu direito a seres quem tu bem quiseres, é certo,
não te faltará o tempo nem o modo para ergueres
os braços e as mãos agarrando o mundo inteiro.
Pode ser de noite e no escuro nada vês ou pode
ser de tarde com o sol alto a cegar-te ou pode ser
de manhã com o espesso nevoeiro a encobrir-te.
Pode ser tudo, nada te pára, porque tu és revolução.
17.7.16
Chuva quente
Chegou a chover esta manhã, enquanto
os teus ouvidos ainda estalavam magoados
pelos decibéis exagerados da noite passada.
Com uma faca pouco afiada, eu tentava limpar
a pele até ao ponto de o sangue emergir por
entre os poros, irritado ao ponto de escorrer
e só depois transmitir aquela dor, insuportável
e fina, que me tolhia qualquer desejo de
movimento. Chegou a chover, dizia, mas não sei
se as minhas palavras chegavam até ti ou
se a tarde inteira é apenas uma construção
frágil que se vai desmoronando com o subir
do sol até ao topo da montanha para depois
descer do lado onde a nossa vista não alcança.
Névoa
Por aqueles dias escrever não era uma
inspiração, tal como a névoa caía feito
chuva sobre as cabeças dos veraneantes
confusos com a situação meteorológica
habitual naquele lugar. Também todas as
promessas de que aquele seria o último
livro eram consideradas vãs, pois esta
sede não se oferece a ciências nem a
crenças, esquece-se quando saciada para
regressar, brutal, quando seco transparece
o coração. Os pés sujos e negros pesavam
sobre uns chinelos baratos, marcas de pedras
assentando sobre a planta, território neutro
de uma luta que insistes em não compreender.
14.7.16
Tudo dói
Tudo dói, Carolina, diz a avó à pequenina
e o último trago do café amargo encrava-se,
vai comigo escadas rolantes abaixo, tropeça
em gente que passa, enrolando-se em mim no
caminho até ao carro. Tudo dói, diz a senhora,
como quem o diz a toda a hora, a pequenina
encolhe os ombros, fica calada, tenta a custo
arrancar o papel do gelado que parecia ser
via verde para qualquer sofrimento. Tudo dói,
a pequena comerá o gelado, eu acabo por me
fazer à estrada e até podia dizer que a vida
segue o seu percurso, mas não segue, porque
ainda vai haver uma avó desencantada pronta
a prender as sinceras emoções da Carolina.
13.7.16
Desenhar jardins
Desenhar jardins é combater o humano resistente
em nós, retirando-lhe o chão trabalhado de debaixo
dos pés para lhe impor relvas escorregadias, trilhos
de terra e pequenas poças depois da rega.
É procurar nesses recantos do mundo onde se vão
desenhando os pés de quem passa pelo relvado
porque o esquema labiríntico dos passeios se estende
em sentido contrário ao da nossa evolução.
Desenhar jardins deveria, assim, ser promovido como
uma arma de guerra contra as evidências, um sonho
utópico de quem se recusa a ir por ali, querendo
sempre um pouco mais das coisas do que linhas retas,
curvas adequadas ou poupança de meios. E nós, os
que ali vão passar, sem medo de sujar os sapatos.
Contracampo
Auguro um mundo onde se veja só com
os olhos, para que cinematográfica se possa
tornar a vida, finalmente. Porque o aquilo que
se deixa ou passa a ver com a mediação do
cérebro, acaba contaminado com a leve
sensação de que aqui andamos apenas
para nos magoarmos uns aos outros. Melhor,
então, esperar essa hora em que a nossa
cegueira não seja existencial, que se possa ver,
de todas as coisas, um e outro lado, sem que
isso transforme aquilo que olhamos mas, sim,
aquilo que temos em nós. E seria após o
recebimento dessa dádiva que, crescidos e
coerentes, poderíamos começar a pensar.
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