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27.1.11

Ajuste

Não se trata de ajustar contas com o passado, trata-se mais de reflectir sobre o futuro. Perceber como se te cola uma imagem que até tu, em certo tempo, acreditaste ser realmente a tua. Mas, na verdade, nunca foste um dos poetas do dia-a-dia, nem das frases despidas, nem dos sentimentos urbanos. A melhor prova de tudo isso é  teres estado sempre afastado do núcleo de quem o defendia. 

No entanto, a exposição é inimiga da compreensão. O que mais foi lido terá sido o que de mais próximo desse grupo produziste. Um conjunto de poemas ao qual não darás grande préstimo, a cada releitura que fizeres da tua obra. Estás agora bem mais próximo do ponto onde começaste, com todas as experiências dos livros publicados, dos sonhos, relativamente adolescentes, também liberto.

Resta-te continuar, não a pintar a vida como ela é (coisa que a bem da verdade nunca muito te interessou), mas sim a vida como ela te aparece (e tu bem dizias, há cinco anos atrás, o quanto a tua poesia era míope). Deixaste tu de ver durante os tempos, cegando assim a leitura de quem vem desprevenido. Não há volta atrás. Trabalha agora com o que tens. Pois bem sabes que não há caminho sossegado até ao cais. 

25.1.11

Uma outra realidade

Há dias, uma editora dizia-me ansiar "pelo dia em que deixe de haver livrarias, que toda a gente compre livros na Internet". O argumento era duplo: primeiro porque ela compra tudo o que lhe interessa na Amazon, segundo porque os livreiros, ora não pagam, ora devolvem os livros danificados. Fiquei de tal forma chocado que me faltaram as palavras para responder. 

Num mundo sem livrarias, a maioria de nós não teria o que ler. Não consigo sequer imaginar o que seria não ter uma livraria por onde passear. As livrarias são os lugares onde sempre me senti mais à vontade. Eu também compro muitos livros na Internet, também tenho as minhas reservas em relação a muitos espaços onde o comércio dos livros acaba por ser uma forma mascarada de maltratar quem escreve e quem lê. Mas encaro o dia do encerramento da última livraria do mundo como o primeiro dia de um mundo onde eu não terei o mínimo gosto de viver. 

Tendemos sempre a sugerir a resolução das nossas frustrações com medidas de impacto radical imediato. Isto vale para o mais analfabeto, como para o mais intelectual dos humanos. A nossa mesquinhez é impossível de disfarçar. Nunca pensamos que a solução das coisas poderá advir do nosso esforço em contribuir para uma solução positiva. É sempre melhor eliminar o inimigo (por muito que a reflexão sobre esta hipótese a aproxime tão perigosamente de outras inesquecíveis "soluções"). 

Infelizmente, também acho que as livrarias irão acabar. E, pouco depois, os livros seguirão esse caminho. A ausência de rentabilidade do pensamento alternativo fará com que esse pensamento deixe de ser editado, passando a ser fruto do empreendedorismo dos seus autores (em blogues, em pequenas edições de autor, ...). A ausência de edição desvalorizará, por completo, a sua existência. Seremos uma sociedade autista, a comprar à distância sem perceber os problemas da nossa própria freguesia. 

A única esperança é que tudo isto aconteça, primeiro, num livro. Num livro que possa ser lido, pensado e discutido. Num livro que, depois de fechado, abra o caminho para que se a realidade seja diferente.