29.8.14

Virá

Deixa a boca fechada
o olhar mortiço;
engana-os enquanto podes.
Sai à rua mal engomado
despenteia-te;
sorte não seres notado.
As mãos nos bolsos
recheados;
licença para escolher.
O que te apetecer,
virá.

28.8.14

Estacionamento pago

Não gosta das raparigas
que alternam humores
consoante os namoros
onde se estacionam.
Tão pouco acha fiáveis
os lugares pagos
e cronometrados.

27.8.14

Velho

De olhar
era cansado
o velho
no alpendre.
Esgotado
como o melão
que adivinha
o fim de agosto.

26.8.14

Lua

Era uma face nova
pouco vista por
estes lugares.
Era uma lua agendada
pronta a desvanecer.

22.8.14

História

Sempre a tentação de seguir a história,
pegar numa ponta que ficou esquecida,
percorrê-la, pisando de novo chão pisado,
em busca de reviver o ignorado pela memória.
Sempre essa tentação. 

21.8.14

Portas

Não lhe seriam pesadas as manhãs,
se os dias fossem portas abertas
onde a brisa entra sem pedir licença.

20.8.14

Desenho

O meu desenho são as lágrimas que nunca existiram,
como se fossem filhas do nada, no chão da sala.
O meu desenho é esse momento que nunca aconteceu. 

19.8.14

Estrada

Encontra-me uma estrada,
repetia eu dentro da cabeça.
Encontra-me uma estrada,
inventa-me uma filosofia,
dentro, eu, da cabeça.
Encontra-me uma estrada.


18.8.14

Dominar o mundo

Por muito pequeno que seja,
o mundo dentro do teu coração.
Por muito desconhecido,
o mundo das paisagens, dos desertos.
Por muito agreste,
o mundo das tempestades.
Por muito quente, o mundo dos fogos.
Por muito inútil que pareça
uma palavra.
A poesia vem para dominar o mundo.
Dominar o mundo.
Para sempre.

15.8.14

Carteiro

O corpo,
se quiser,
será morada,
lamentada
pelas cartas
por entregar.

14.8.14

Arriba

O corpo,
se quiser,
será arriba,
desenrolada
pedra a pedra
até ao mar.

13.8.14

Força

Não dar a sinceridade
por garantida.
Nem temer a vaidade
se forçada.

12.8.14

Silêncio

Tu gabas-me o silêncio
por saber
pouco sonoro
o soneto
que em mim escrevo.

11.8.14

Marco

Para não deixar morrer
a poesia em mim,
exercito-a
de boca fechada.

6.6.14

Soneto Quebrado (II)

Não saber nunca
como começar
ou acabar.
Ter sempre certo
que fazes tudo
mal feito.
Uma bela porcaria
ou só outra brincadeira,
para as palavras
ter certo jeito
já se sabe não ser
qualificada garantia.

Há quem lhe chame poesia,
chamemos-lhe Fred Astaire.



Da série Chamemos-lhe Fred Astaire.

5.6.14

Ombro dela

Nunca escorreguei
na Feira do Livro
mas lembro-me de chover (e muito)
e não teres trazido guarda-chuva
e me teres dito, abraça-me,
e eu te ter sorrido,
descendo seguro
pela feira vazia.



Da série Chamemos-lhe Fred Astaire.