Pois é largo o tempo do Rapaz, mas mais largo será o tempo que nos resta.
Não temamos, pois, o fim das histórias.
O Rapaz por aí vive.
A meio caminho entre o antes, o agora e o depois.
Não quer mais perder os sentidos, o Rapaz a caminhar pelo túnel do metro. Caras estranhas que se fixam na sua, como se o reconhecessem.
Falta-lhe o ar quando se sente encontrado.
Bebeu de um dos copos em cima da mesa, disso tem ele a certeza.
No outro canto, o Rapaz sorri.
Quantas pessoas existem em mim, pergunta de si para si.
Certas respostas são demoradas e pouco credíveis, imagina.
Não cabem nas mãos do Rapaz todas as soluções do mundo. Viajar entre a infância e a terceira idade é complicado.
Talvez por isso ele insista em comprar sempre bilhete de ida e volta para a viagem.
O Rapaz tem medo de ficar.
Já vos falei das coisas do Rapaz. Houve um tempo em que foi pequeno, um outro tempo em que foi grande e muitos outros tempos em que teve, a cada vez, o seu tamanho.
Tentar definir o Rapaz é um trabalho sem fim.
Falar-vos-ei de mais coisas do Rapaz.
Tão pequeno e sem falar, já sonhava o Rapaz.
Umas semanas, sonhos doces e grandiosos, prometendo-lhe futuro.
Noutras, apenas um sono agitado, um prolongamento do estar acordado, vendo todas as coisas como elas são mas não parecem ser.
Já sonhava o Rapaz, e com sonhos ia construindo a sua história.
Que era pequena, ainda, ali.
Frágil nasceu o Rapaz.
E durante o tempo dos leites, de poucas carnes era, pele e osso apenas.
Apressaram-se os adultos a receitar-lhe açordas, pedacinhos desfeitos de pão, uns primeiros fios de carne.
Frágil nasceu o Rapaz, mas não para ser frágil nasceu.
E não muito depois, era já farta a sua constituição.
Já vos falei dos olhos do Rapaz.
Grandes, pareciam captar mais do que a realidade tinha para oferecer.
Talvez os que o rodeavam não reparassem na força daquele olhar.
Talvez pensassem que os olhos são isso mesmo, pequenas caixas de ver o momento, não máquinas de registar.
O Rapaz tinha olhos grandes, olhos que registavam.
Ainda não vou disse tudo sobre os olhos do Rapaz.
No primeiro ano, o Rapaz não falava.
Nisso, era como todos os outros bebés.
No entanto, à sua volta, todos davam as suas opiniões.
Acertavam-lhe projetos, adivinhavam-lhe feitos, não lhe davam descanso, para toda a eternidade, deus o benzesse.
O Rapaz tinha os olhos grandes, não falava.