28.5.15

Perguntar

Quantas vezes o regresso
nada tem de transgressor
pouco diz do que aparece
se faz mais no que nos falta?

Quantas vezes é apenas
recomeço ou coito estéril
sem noção da própria história
sem um mapa ou um plano?

Quantas vezes a pergunta
já não quer qualquer resposta
fica bem com um aceno
orgulhosamente calada?

Quantas vezes me esqueci
e insisti em não me lembrar?
Quantas vezes foi inútil
o próprio ato de perguntar?

23.2.15

Nunca em vão

A estrada com sol
A estrada com chuva
A estrada de noite
A estrada de dia
A estrada
A estrada
A estrada

19.2.15

Novo chão

O poema desliza como a terra
no dia em que o rio salta as margens
e as avós gritam de mãos na cabeça
a horta os bichos o muro velho.

Tenho os pés enterrados no novo chão.

18.2.15

Regador

Fiz várias vezes
o mesmo caminho
até o conhecer
de olhos cerrados.

Aspirei a casa,
lavei a roupa, a loiça,
e chorei baixinho
enquanto esperava.

Não terás assim como perceber
que me esqueci de regar as flores.

17.2.15

13.2.15

Registo de interesse

Pouco dado,
não por ser
calado, mas
mesmo sem interesse.

Registe-se e assine-se
digitalmente -
para poupar o ar
mas não a gente.

12.2.15

Recado

Vê mas é se escreves
qualquer coisa que eu possa
por ti repetir
a quem o goste de ouvir.
Pode parecer peta,
mas não nasci poeta

11.2.15

Trova de Amor

Quem se espanta
com o mal que canta
e ainda assim canta
sem me espantar.

10.2.15

Cigano

Fogem de mim, com saúde,
os que medo da cura pressentem.

Fazem-se rijos, enquanto tremem,
dançam perdidos, de olho na burra.

Mal eles sabem que de cigano,
só tenho a barba e a palavra rude.

Pouco lhes posso fazer tal dano.
Fujam de mim, se têm saúde.

9.2.15

Roda

Não digo que não me percebas,
sou eu que não me explico bem.
Mas se fosses em mim entendida
para que me quererias também?

6.2.15

Caçador

Da caça levo a agitação
e os risos altos da malta -
sempre fechei os olhos
à bicharada morta.

Sempre fui pequeno
para bater à tua porta.

5.2.15

Perdiz

Pequena e frágil
a perdiz fez-se arte,
gastronomia e luxo.

Mas poucas são
as que resistem
a dois tiros no bucho.

16.1.15

A banda

Como em mil novecentos e setenta e nove
eles tocam guitarras
eles fumam cigarros
eles sonham voar
eles fazem canções
eles enrolam entre dedos
incertos mundos por encontrar;

Eu já vesti o meu pijama,
não me quero chatear.

15.1.15

À tua luz

Não gosto de fazer promessas
porque sei bem não as cumprir.

Faço do frio o meu refúgio
se não consigo adormecer.

Não sei muito melhor que isto
mesmo quando és tu a pedir.

Mas continuo à tua luz
a fazer por merecer.