10.2.15

Cigano

Fogem de mim, com saúde,
os que medo da cura pressentem.

Fazem-se rijos, enquanto tremem,
dançam perdidos, de olho na burra.

Mal eles sabem que de cigano,
só tenho a barba e a palavra rude.

Pouco lhes posso fazer tal dano.
Fujam de mim, se têm saúde.

9.2.15

Roda

Não digo que não me percebas,
sou eu que não me explico bem.
Mas se fosses em mim entendida
para que me quererias também?

6.2.15

Caçador

Da caça levo a agitação
e os risos altos da malta -
sempre fechei os olhos
à bicharada morta.

Sempre fui pequeno
para bater à tua porta.

5.2.15

Perdiz

Pequena e frágil
a perdiz fez-se arte,
gastronomia e luxo.

Mas poucas são
as que resistem
a dois tiros no bucho.

16.1.15

A banda

Como em mil novecentos e setenta e nove
eles tocam guitarras
eles fumam cigarros
eles sonham voar
eles fazem canções
eles enrolam entre dedos
incertos mundos por encontrar;

Eu já vesti o meu pijama,
não me quero chatear.

15.1.15

À tua luz

Não gosto de fazer promessas
porque sei bem não as cumprir.

Faço do frio o meu refúgio
se não consigo adormecer.

Não sei muito melhor que isto
mesmo quando és tu a pedir.

Mas continuo à tua luz
a fazer por merecer.

14.1.15

Mapa

Dizer melhor,
não sei,
pedir desculpa,
não peço.
Fazer de novo,
quem sabe.
Voltar atrás,
não quero.

13.1.15

Coisa

Tens os olhos secos
mas a maquilhagem escorre
pela tua face abaixo,
somos sempre aquilo
que deixamos
por terminar.

12.1.15

Dois mil e quinze

Onde os círculos se completam
e as razões se encontram;
pouco importa quantas palavras
te restem ainda no saco de viagem -

acabas de regressar a casa.

7.1.15

2.1.15

Promessa

Ao teu lado, sereno,
que mal me poderá acontecer?
Tu estendes os braços,
apontas a arma,
de olhos fechados
sempre a acertar.
Ao teu lado, sereno,
que mal me poderá acontecer?

30.12.14

Falhar

Mesmo não tendo
nenhum furo
o pneu perde,
ainda assim, ar.

Mais um ano que acaba.
Mais um ano a falhar.

29.12.14

Estrangeiro

Certas coisas sem perdão
ficaram esquecidas na casa.
As manhãs enquadradas nas
fotografias sobre a cómoda,
os suspiros calorosos
na marquise virada ao jardim,
as luzes apagadas numa cama
onde nunca dormimos.

Não esperaria, assim,
o telefonema, as boas festas,
a plasticidade arrastada
do reencontro.

Por isso se cavam sepulturas no estrangeiro
para aqueles que morreram na guerra

24.12.14

Natal (2014)

De ano a ano lembram-se
pedir verso apropriado
ao aniversário do menino.

O poeta não se cansa
a repetir o pouco gosto
em escrever de encomenda.

Houve no entanto ocasião
em que antes do bacalhau
fez-se poema com sentimento.

Por isso, se de novo alguém
nisso de pedir poema se mete

o poeta manda procurar na internet.