12.12.14

Engano

Um verso por ano
quanto luxo
não seria.

Também ele,
O'Neill, queria.

Também eu,
assim, me engano.

11.12.14

Vazio

Não voltarei a dizer
o copo a língua
o ser-se resgatado
continuamente
deste mundo.

Seguirei apenas
vazio concreto
carregando um fardo
alegremente
mais leve.

10.12.14

Morrer

Boca fechada,
insistia,
e as ideias
pensamentos
que fazer?

Tudo é perigo
até morrer.

9.12.14

Restos

Já fiz poemas
mais sujos
do que o outono
mais ventoso -

mas em alguma boca
eles luziram
pepitas de ouro
entre restos
de comida.

8.12.14

Abandono

Quiseste ser cidade
e transformaste-te
em abandono.

Ficaram só os nomes
historiografados
em nenhum solo.

5.12.14

Refúgio

Onde a palavra
é refúgio
para o que não sei dizer -
se bem me engano,
já aqui estivemos.

4.12.14

Sem luz

Inventaram a cidade
de luzes apagadas
apenas motores de carros
a acelerar holofotes
no meio das estradas.

A rima é um sinal que pisca
um condutor distraído
salpicos de sangue
na passagem dos peões
para outro lado.

3.12.14

Do silêncio

para o Luís Maffei

O poeta fala baixo
os olhos brilham,
o que o corpo encolhe
a alma escolhe,
a ideia vibra.

Precisa apenas do silêncio
para estar mais perto
do que se escuta.

2.12.14

Era

Arrisco a dizer que ainda são
as mesmas pessoas
os mesmos sonhos
as mesmas ambições
e até
os mesmos cigarros
quem se senta nesta esplanada
suja no meio de uma Avenida.
Só eu não sou quem era.

1.12.14

Entrecampos

Procurei em todos os cafés de Entrecampos
a nossa mesa, o teu convite,
acreditando que o sol chegara para nos
cruzarmos numa das portas do passeio.
Mas conheço-me demasiado bem:
só me aproximo
de quem foge.

28.11.14

Imitação

Tantas palavras deixei de fora
do bilhete escrito à pressa -
para mau poeta, é o que basta;
para mera história, ninguém me imita.

27.11.14

Baía

Se ao verso ainda resisto
infiro destrezas ausentadas.
Por falar, dizer-te nada,
sou uma baía de absentismo.

26.11.14

Provas

O esforço é para que não caia -
o resultado apenas silêncio.
Mas nem para tudo que aparento
posso apresentar provas dadas.


10.10.14

Olá

O olá desfez-se entre os lábios, como uma folha que desaparece com o vento. Mas ele ainda estava ali. Ficou sem mais nada o que dizer, perante o silêncio dela tão semelhante ao dele como uma face que cora perante o vazio. Na rua da incompreensão mútua, vão amar-se silenciosamente para sempre.

9.10.14

Cara

Seleciono caras no meio da multidão, podia culpar outra coisa, culpo apenas a miopia, o ar condicionado. Seleciono caras, simpatias, pronto a inventar comunhões que nunca virão a existir. Como explicar a um olhar uma teoria poética que pode nunca vir a terminar? Cansam-me as erudições e só sei viver nelas.

8.10.14

Regresso

Voltava a andar pelo passeio como se ninguém o visse. É bom voltar a estar no mundo onde te ignoram. Só te pesam os pés porque as horas, agora, se fazem de minutos que entendes melhor. Ninguém pensou que ia ser diferente. Estava-te a contar o quê?

7.10.14

Lírico

Chamou-me lírico como quem diz boa tarde e nas paredes da casa escorria a humidade do inverno que chegou quente. O corpo suado já falava o suficiente da minha pessoa, dizer mais para quê. Não faço perguntas, não quero respostas. Chamou-me lírico. Segui viagem.