9.12.13
Livro
Tinha uma noção meio desviada do poder das palavras. Recebia-as com algum desprezo. Entregava-as sem qualquer atenção. Estava vivo de mais para se perder num livro.
6.12.13
Realidade
Hoje é o dia em que tudo começa. O dia em que sabes não poder dormir. O dia em que tudo conta. E tu estás preparado. Cruzas os dedos, ranges os dentes, olhas fixamente. Na tua cabeça, tudo acontece uns poucos segundos antes da realidade. É só isso que é preciso.
5.12.13
Público
À frente da sua casa, corria livre pelo relvado. Sabia que nem ali estava solto das suas preocupações. Era apenas um regozijo municipal, uma espécie de colorido público da encenação da sua morte.
4.12.13
Cidadão
Limpava os dedos nas velhas calças de ganga. Comprava guerras com a sua própria saúde. Não tinha nome. Bebia o seu café e saía. Como um qualquer cidadão do mundo.
3.12.13
Silêncio
Foram alguns dias sem dores, outros tantos sem pensar, muitas horas sem querer, alguns minutos perdido. Foi apenas um silêncio. Já passou.
2.12.13
Frio
Podias ser mais frio, invernoso, aprender a chorar no tempo certo. Mas no teu boletim meteorológico, a previsão é sempre incerta.
29.11.13
Bicho
Olho o bicho assustado, vai no meio da estrada e não sabe ainda se estará vivo daqui a poucas horas. No entanto, no bicho há apenas um instinto, não lhe dói o passado, nem o futuro, não o perseguem as memórias do conforto, apenas as luzes dos automóveis.
28.11.13
Portas
Estamos habituados a viver assim, sempre à procura de uma porta aberta na rua deserta. Mas a vida, essa, não tem surpresas. As ruas desertas são, na quase totalidade das vezes, apenas ruas vazias. Sem portas.
27.11.13
Escrevo
Não sei explicar a prosa porque não há um outro sentido qualquer nas palavras, estejam elas como estejam organizadas no papel ou no ecrã. Não sei explicar nada mais do que o óbvio. Por isso, escrevo.
26.11.13
Doença
Recuperar a doença. Aprender a viver com ela. Desconfiar de todos os sinais do corpo. Reter, a cada gesto, o calendário do futuro.
25.11.13
Domingos
Uma rua ventosa, um dia de inverno, uma conversa de café. Domingos cheios de nada, apenas sorrisos breves, ensaios de felicidade.
24.11.13
Caixão
Se lhe perguntam pelos livros, encolhe os ombros. Não quer saber. Prefere inventar diários, fumar cigarros, beber-se a si próprio. Sem o esforço de mastigar a madeira do próprio caixão.
22.11.13
Desesperados de espírito - V
Aprendeste a cortar as veias
acordas leve
sais de casa.
Eu sou a caixa onde guardas
as coisas pífias
como o chorar.
acordas leve
sais de casa.
Eu sou a caixa onde guardas
as coisas pífias
como o chorar.
21.11.13
Desesperados de espírito - IV
Cobrimos tantas vezes a pele
de tinta de canetas esquecidas
nas mesas das salas de aula.
O nosso sangue era falso
o que podíamos esperar?
de tinta de canetas esquecidas
nas mesas das salas de aula.
O nosso sangue era falso
o que podíamos esperar?
20.11.13
Desesperados de espírito - III
Éramos como todos os outros
desesperados de espírito,
Não sabíamos que o futuro
tinha portas por abrir.
desesperados de espírito,
Não sabíamos que o futuro
tinha portas por abrir.
19.11.13
Desesperados de espírito - II
Lembro os dias
de lamber feridas
feitas nas paredes
rugosas da escola.
Lembro os dias
sem sorrir.
de lamber feridas
feitas nas paredes
rugosas da escola.
Lembro os dias
sem sorrir.
18.11.13
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