18.12.12

O pastor; a solidão - 5


Todos os irmãos e os pais
tinham os dentes verdes.
Todas as suas mães
gozavam pela casa.
Homens e animais rodeavam-nas,
acossados,
querendo comer-lhes pedaços do corpo.
Ele era o pastor,
ele sabia a palavra,
e pouco faltaria para descobrir
a palavra nojo,
a palavra moral.
Todos os seus irmãos,
pais e mães,
viviam como se sobrevive,
debaixo da terra.
Ele saía para o vale, ele conduzia o rebanho,
ele descobria a solidão. 

17.12.12

O pastor; a solidão - 4


Ele era o único a saber.
Deram-lhe o cajado e empurraram-no
para o vale, ele era o pastor,
ele conduzia o rebanho,
e  à força da sua diferença
inaugurava a solidão.
Aprendeu de todas as linguagens
as palavras,
falava com as aves,
com as pedras e as árvores,
falava com os objectos
e inventava-lhes os nomes.
Só não falava com a sua gente
porque a eles todas as línguas
eram estranhas.
Ele era o único a saber.
O rebanho perseguia-o sem resistência,
toda a riqueza da sua família,
que à força da sua palavra
se multiplicava e fazia crescer,
sob os corpos,
todo o alimento de que precisavam.
Na noite, ele inaugurava
a solidão no seu quarto.
E quanto mais sabia, quanto mais o rodeavam,
maior era o seu isolamento.

16.12.12

O pastor; a solidão - 3


Dos tantos de sangue  e carne sua,
ele detinha as pernas mais fortes
e a capacidade da palavra.
Então, no seu quarto, ele inaugurava
a solidão.
Era de todas as noites a primeira,
o mais jovem de todos os irmãos
nascidos em dia comum
gritou com sentido.
Sempre a casa tinha sido feita
de grunhidos ou silêncio
e ele inaugurava a palavra dentro das paredes.
Todos acordaram em terror,
temendo a invasão,
e  bateram com os pés nas paredes,
esfregaram os cabelos com raiva
até que a palavra se repetiu.
Cercaram a sua origem e
perceberam.
A palavra era de um deles.
O pastor.

15.12.12

O pastor; a solidão - 2


Pensei que a solidão se fizesse sempre
pela exclusão –
realmente foi aqui que começou
a história do pastor.
No entanto, ele era uma casa inteira,
gente do sangue e da carne sua,
nomes que haviam surgido
entre as primeiras palavras da boca.
Ele era uma casa inteira
e o seu quarto inaugurava a solidão.
Os seus muitos irmãos,
pais e mães,
acorriam de braços abertos
à sua existência,
beijavam-lhe a fronte e davam-lhe graças
pela coragem.
Ele era o pastor, ele conduzia o rebanho.
Transportava nas mãos
a riqueza da família
que todos os dias mergulhava na terra
como quem vai alimentar as sementes
dos frutos e vegetais
fazendo amor, à bruta, com elas.
Os seus muitos irmãos e pais
chegavam a casa sujos,
os dentes verdes.
Eles eram o princípio da cadeia alimentar.
As mães sentavam-se sobre os animais da casa
e gozavam.
Limpavam as camas e os poucos objectos da casa,
acariciavam os instrumentos da cozinha
e gozavam.
Ele era o pastor, ele conduzia o rebanho.

14.12.12

O pastor; a solidão - 1

Experimenta ficar calado
- disseram-lhe –
o pastor parado no meio da estrada,
uma rua inventada entre as casas
compondo uma aldeia
onde havia apenas uma família
a crescer pelas necessidade do campo
e da fome.
O pastor parado e nenhum ruído,
já não era presente aquela frase
nem o sujeito que a fizera nascer da boca,
já não era noite, nem taberna,
o pavio do candeeiro há muito apagado
e seco.
O pastor parado e mais ninguém,
agora havia que aprender sozinho
todos os caminhos da solidão.


Nota: O pastor; a solidão é um poema inédito dividido em 12 partes. Entre 14 e 25 de dezembro será publicado neste blogue. Podem considerá-lo a minha prenda de natal. 

13.12.12

“Porque o mundo não se acabou”


Fazer dos dias uma coisa diferente, eis o desafio. Construir as horas de uma maneira nova, porque as palavras já não cabem no mesmo caminho. Fechou-se a estrada, acabaram-se os autocarros, as manhãs iguais na fila do trânsito. Acabou-se a metáfora do trabalho. No mesmo dia, um telefonema que nada diz do outro lado. Um silêncio furado, uma chamada para duas horas de um corredor artificialmente aquecido, os olhares especialistas à procura de evidências.

Mas, lá está, “o mundo não se acabou”. Há que regressar à palavra e encontrar novas estradas. Começar por recuperar, pedra a pedra, os muros caídos à volta do quintal. Embelezar o monumento não é bem a preocupação. Antes construir uma casa a partir da arqueologia da história. Colocar os pés, com força, à força, no terreno pantanoso onde acabaremos por ficar enterrados. 

Também por isso, nenhuma promessa. Apenas a vontade expressa. Nada mais que isso. 

6.12.12

Pedido

Peço apenas um pouco de claridade. Que a luz entre pela janela um pouco antes, que os sons do prédio sejam mais harmoniosos ao acordar. Peço apenas um pouco de calor. Que o conforto seja feito de peles que se tocam, que nada mais seja preciso para andarmos pela casa. Peço, ainda, alguma direção. Que os pés caminhem no sentido do encontro, que as ideias queiram ser aquilo que sempre foram. União.

5.12.12

Desconhecido

Não precisas de ter os olhos abertos para te sentires segura neste caminho. Sabes que não há pedras que te derrubem, nem ventos que te afastem. Podes descer pelos atalhos onde os teus pés te conduzem, nada há a temer no desconhecido. No fundo, somos uma partilha imensa de sensações. Onde tu fores, já sabes, irá também o que é, em ti, poesia.

3.12.12

Mudar


É o corpo a mudar, o corpo a mudar. Por uma dor invisível que não sabes localizar, onde algo se alinha, outro algo definha. É o corpo a mudar, sem idade de acontecer. Órgãos que se acomodam, à procura de lugar. O que houver para aprender, não se pode explicar. O que podes dizer, é o corpo a mudar.

1.12.12

Importante

É importante escrever, mas eu também gosto de um casaco, o café quente pela manhã, uma música suave que me vai ajudando a acordar. Eu sei, é importante o mundo, as pessoas lá fora, mas estivesses aqui e só isso contaria para que os vivos fossem vivos.

É importante a poesia, mas eu também gosto de fechar os olhos e deixar-me levar, abrir a janela e a humidade gelada a tocar-me na face, os cabelos desgrenhados, a barba por fazer, e tudo ter um sentido único e completo, porque estejas onde estiveres, estás comigo.

28.11.12

Sol

Hoje o sol acordou connosco, vamos passear lá fora e despir todos os pensamentos pelo jardim. Sim, está um gelo, deixa que o gelo purifique a pele que insiste em envelhecer sob o peso dos preconceitos. Hoje o dia quis fazer-nos uma surpresa, vamos dançar para a varanda e assobiar para que regressem os passarinhos. Sim, o jardim está vazio, deixa que a tua imaginação pinte todas as coisas com as cores da primavera.

27.11.12

A Rua

Desço a rua pelas últimas vezes, saboreando assim um ritual que se irá perder muito em breve. Sabermos, de antemão, do fim de uma rotina, dá-nos tempo para entender melhor aquilo que fazemos. Porque é que, ao longo do tempo, fui escolhendo esta rua, e não outra, para chegar ao destino; quem são estas caras que eu reconheço, sem nada mais saber do que o facto de com elas me cruzar nesta rua.

Desço, então, a rua, pelas últimas vezes, nada amargado com a situação reconhecida, nem sequer desiludido com o fim de algo que não soube bem como começou. O sol decidiu aparecer, apesar da brisa gelada que vem do rio. Na calçada, mais uns taipais anunciam novas obras, reconstituições. Sinal de que nada é para sempre, nesta rua, nesta vida.


26.11.12

Frio

Não me apercebi da passagem do verão. Apenas das janelas abertas e do sol na varanda. Não me apercebi de que o tempo passa, sequer. Era o primeiro agosto desta casa e tudo era novo, em descoberta.

Agora, voltou o frio. O inverno já conhecido por aqui. A noite ocupa o comprimento dos dias e as janelas permanecem fechadas. Corremos a buscar as mantas, festejamos os momentos em que o forno está ligado.

Resistiremos poucos dias ao ligar do aquecedor. Não estamos por aqui para sermos heróis de nada. Desejamos apenas que o conforto se construa como algo natural. Como o verão que passou despercebido, como depressa o inverno também acabará.

E, com ele, o frio.

20.11.12

Peregrinatio ad loca sancta

Podia dizer a poesia a tentar-me - não sei explicar melhor certas coisas que prefiro serem sem explicação. Mas talvez uma noite como as outras, com o amor de sempre, alguma música, sobretudo, tudo aquilo que nos une, cada vez mais.

Podia dizer a vida recomeça agora - quantas mentiras somos capazes de colar ao nosso inconsciente? - e afinal apenas o caminho que segue pelas suas curvas, uma e outra vez. Mas talvez o inverno que se aproxima, com o amor de sempre, uma fruta seca, sobretudo, tudo aquilo que nos faz ficar ainda mais perto.

noite

porque saber tudo,
ainda assim,
sabe-me a pouco.

memória contrafeita


 o astronauta alucinado recomenda, sorridente,
um encontro amoroso na rua do mercado
de modo a que os amantes possam estar conscientes
do valor passível de ser produzido num beijo
ou numa troca de palavras visivelmente apaixonadas.

assertivamente considera positivo e desejável
o equilíbrio das partes neste encontro já marcado.
o homem deve trazer casaco escuro, como os doutores,
e a mulher arranjar o cabelo de modo a fazer-se notar.
o valor do encontro é o desencontro de todas estas regras.

no conjunto das palavras que se encaixam nestas frases,
as que vão ser debitadas pelos lábios molhados dos amantes,
encontram-se aquelas que soam a frutos, sumos e liberdades,
ou seja, as palavras que são queridas por quem se ama.
o astronauta alucinado deseja-vos bom fim-de-semana.